Unioeste mapeia relação de câncer de mama com agrotóxico

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O curso de Medicina da Universidade Estadual do Oeste (Unioeste), Campus de Francisco Beltrão, está fazendo um mapeamento sobre a relação da exposição de agrotóxicos e o desenvolvimento de câncer de mama.  O trabalho é o foco central do projeto “Mapeamento do câncer de mama familial no Sudoeste do Paraná e estudo da associação de risco com a exposição ocupacional à agrotóxicos”, coordenado pela docente do curso, Carolina Panis e supervisionado pelo médico oncologista, Daniel Rech. O mapeamento só foi possível graças a uma parceria entre o curso,  Hospital do Câncer ( Ceonc) e o Instituto Nacional de Câncer (Inca).

O  levantamento abrange dados da 8ª Regional de Saúde que engloba 27 municípios da região Sudoeste do Paraná. Conforme o mapeamento, o Sudoeste  apresenta um alto índice de casos de câncer de mama. Para se ter uma ideia, a média nacional é de 63 casos de câncer de mama ao ano, na região esse número salta para 90, um dado preocupante, pois corresponde a uma diferença de aproximadamente 30% a mais do que a estatística do restante do País.

O projeto tem um banco de dados com mil amostras, de pacientes diagnósticas. Do início do trabalho até o momento, foram entrevistas aproximadamente 4 mil mulheres.  O estudo coloca a Unioeste entre as instituições preocupadas com esse fator de risco, abrindo novas possibilidades de pesquisa. Conforme estudos científicos comprovados, a exposição a agrotóxicos eleva a produção de estrogênio além do normal, o que favorece o desenvolvimento de tumores malignos.

As amostras coletadas, positivadas para carcinoma invasivo, são encaminhadas para o Inca que faz esse exame detalhado apontando a exposição ao agrotóxico como uma das possíveis causas do desenvolvimento da doença.

A coleta de informações é feita nos prontuários que seleciona dados clinico-patológicos das pacientes. As análises laboratoriais feitas no Laboratório de Biologia de Tumores (LBT) do Campus de  Francisco Beltrão, realizadas também pelos alunos.

A coordenadora do projeto, Carolina Panis, diz que o projeto traz informações valiosas e podem contribuir e muito com as pesquisas sobre o câncer de mama. Também participam do projeto o Programa Pós-Graduação Stricto Sensu de Ciências Aplicadas à Saúde de Francisco Beltrão e a Liga acadêmica de oncologia clínica e cirúrgica. No momento, a equipe conta com quatro bolsistas de extensão e de pesquisa.

A pesquisadora relata que o projeto identificou que o câncer de mama em mulheres agricultoras é mais agressivo, um dos motivos é o contato mais próximo com os pesticidas (substâncias utilizadas para controle de pragas). “O nosso foco é estudar a exposição severa que ocorrem com mulheres que semanalmente trabalham manipulando o veneno”, reafirma a professora Carolina

O oncologista Daniel Deck explica que o banco de dados é bastante rico em informações. As pacientes são credenciadas e seus exames são encaminhados para o Inca. “Nós fazemos a coleta, material biológico, sangue e amostra da mama. Qualquer alteração suspeita para câncer, que normalmente vai para cirurgia, tem o material coletado e enviado para o Inca para exames mais detalhados. Assim podemos ter um panorama da microrregião”, diz o médico.

Atualmente uma série de estudos científicos aponta a exposição a agrotóxicos como fator de risco para desencadeamento do câncer de mama. Esses estudos reforçam a tese de que a exposição a esses pesticidas pode alterar atividade promotora para induzir aumento de estrogênio, portanto, a proliferação de células cancerígenas.

Para fazer parte do projeto, a mulher entra como voluntária, assinando termo de compromisso que elucida informações como é feito o mapeamento, bem como o sigilo dos dados. Na pandemia do novo coronavírus, o projeto não parou e manteve o levantamento também de forma remota.

Caso identificada alguma ligação entre o diagnóstico e a exposição aos agrotóxicos, é feito uma análise mais criteriosa, com rastreamento de informações genéticas. As mulheres vítimas de câncer tem, ainda, um apoio da equipe, com aconselhamento genético que atinge toda a linhagem, como filhas, netas, irmãs e sobrinhas.

O trabalho consiste em identificar o perfil clínico do câncer, características da patologia, entrevista com pacientes para entender o histórico familiar na genética.  O projeto coleta dados desde a herança familiar, bem como o estilo de vida da paciente e se essas mulheres, que vivem em áreas rurais, tiveram contato com agrotóxicos.

O médico Daniel Rech diz que nesse trabalho, é fundamental a parceria do Ceonc, que possibilita coleta de sangue, dos tecidos tumorais, além da colaboração de médicos, da direção e da equipe do centro cirúrgico para que os alunos possam fazer as captações de materiais para análise e na realização das entrevistas.

Dados do Inca mostram que o câncer de mama é o mais incidente em mulheres no mundo, representando 24,2% do total de casos em 2018, com aproximadamente 2,1 milhão de casos novos. É a quinta causa de morte por câncer em geral (626.679 óbitos) e a causa mais frequente de morte por câncer em mulheres.  

No Brasil, excluídos os tumores de pele não melanoma, o câncer de mama também é o mais incidente em mulheres de todas as regiões. Para o ano de 2020 foram estimados 66.280 casos novos, o que representa uma taxa de incidência de 43,74 casos por 100.000 mulheres.

Liga acadêmica

O curso de Medicina de Francisco Beltrão criou a Liga Acadêmica de Câncer de Mama. A aluna Maria Eduarda Fontana Vasselai, do terceiro ano de Medicina, é uma das voluntárias.  “Acredito que a realização de pesquisa é muito importante, pois é através dela que podemos conhecer melhor as doenças e o perfil das pessoas que são acometidas por elas, além disso, é possível promover mudanças em protocolos de atendimento e até mesmo descobrir novos medicamentos

Para a aluna, pesquisar aspectos sobre esse tipo de câncer possibilita o entendimento de como e por que o câncer de mama se manifesta em algumas pessoas, podendo ajudar no futuro a diagnosticar precocemente essa doença e dar respostas a todas as mulheres que já participaram da nossa pesquisa” comenta.

Fernanda Mara Alves, também do terceiro ano, soube do projeto por uma amiga que cursava o 4º ano, e desde então se empenhou nas funções propostas pela ação. Ela compreende que participar desse projeto proporciona o aprendizado de valores éticos, o respeito e empatia “a oportunidade de participar dentro de nossa Universidade, de um projeto tão abrangente e importante em nossa região do Sudoeste, traz uma vivência e experiência única para a vida profissional, faz a gente ter contato com pesquisa e extensão”.


Por Mara Vitorino e Milena Griz