O cientista social é, antes de tudo, alguém que enxerga o mundo como um campo a ser interpretado, analisado e transformado. No Dia do Cientista Social, celebrado nesta terça-feira (22) de julho, a Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Toledo, homenageia o professor Eric Gustavo Cardin, docente do curso de Ciências Sociais, cuja trajetória pessoal e acadêmica é marcada por um compromisso profundo com a leitura crítica da realidade e com os desafios que a sociedade impõe à atuação profissional nas ciências humanas.
Natural de Foz do Iguaçu, Eric descobriu sua vocação ainda na juventude. Envolvido ativamente em movimentos sociais e políticos de sua cidade natal, começou a desenvolver uma consciência social que, mesmo de forma intuitiva, já apontava para o futuro na área das Ciências Sociais. “Eu desenvolvia, sem mesmo perceber, uma leitura de mundo que depois, de certa forma, vai influenciar nas minhas escolhas”, relembra o professor.
O despertar para o campo acadêmico veio com o incentivo de um professor de geografia do ensino médio que ao perceber o interesse de Eric por temas ligados à geopolítica, sugeriu que ele considerasse as Ciências Sociais como um caminho possível. A sugestão plantou uma semente. No entanto, como em muitas trajetórias de estudantes brasileiros, as barreiras econômicas postergaram o sonho: “Quando terminei o ensino médio, eu não tinha condições econômicas de sair de Foz do Iguaçu e morar em outro município para estudar”, conta.
Com o tempo, as condições se alinharam e o caminho acadêmico nas Ciências Sociais se tornou realidade. Desde então, sua atuação tem se destacado especialmente na área da Sociologia do Trabalho, com foco nas formas de trabalho informais e subterrâneas, presentes principalmente em regiões de fronteira como a de Foz do Iguaçu. Há cerca de 20 anos, o professor dedica-se a investigar as formas de sobrevivência criadas por populações excluídas do mercado de trabalho formal, com atenção especial às dinâmicas de circulação de pessoas e mercadorias nas fronteiras do Brasil, Paraguai e Argentina.
“Essa é uma região que tem um impacto direto no nosso cotidiano. A fronteira define o tipo de mercadoria, de trabalho, de consumo e como consequência disso, o tipo de viés político que predomina na região”, explica. Sua pesquisa se debruça sobre os atravessamentos entre economia informal, dinâmicas sociais e estruturas políticas, em um esforço contínuo para compreender como as populações locais constroem estratégias de sobrevivência e resistência diante das desigualdades estruturais.
Mas a atuação do cientista social vai além da pesquisa acadêmica. Para o professor, a profissão carrega o desafio de enfrentar os resquícios de um passado colonial e escravocrata, ainda fortemente presente na cultura política brasileira. “O pensamento coronelista, clientelista, paternalista, ainda impregna nossa cultura. Isso interfere diretamente na forma como a sociedade se organiza e impacta também a nossa atuação profissional”, observa.
Um dos grandes obstáculos enfrentados pelos cientistas sociais, segundo ele, está justamente na disputa por espaço no mercado de trabalho, frequentemente dominado por relações de apadrinhamento e indicações políticas. “Muitas vezes, grupos políticos e econômicos preferem contratar pessoas próximas, sem a formação técnica necessária, em
vez de profissionais preparados cientificamente para analisar conjunturas e realizar diagnósticos fundamentados”, aponta.
Apesar das barreiras, Eric Gustavo acredita no potencial transformador da profissão. “Nosso trabalho é baseado em metodologias científicas, e os resultados das nossas pesquisas nem sempre são convenientes para todos. Mas isso é justamente o que confere legitimidade e seriedade ao nosso ofício”, afirma.
Com uma visão ampla sobre o papel do cientista social na sociedade, o professor ressalta que a atuação profissional pode se dar em diversos espaços para além da docência e da assessoria política. “O cientista social pode participar de análises de impacto de reformas urbanas, da construção de grandes obras, da definição de reservas ambientais, do assentamento de movimentos sociais e em inúmeras outras áreas. Existem muitos lugares para o cientista social atuar.”
A trajetória do professor é também um retrato dos caminhos possíveis (e muitas vezes árduos) que marcam a formação de tantos outros profissionais das Ciências Sociais no Brasil. É a história de quem escolheu a profissão por acreditar que entender o mundo é o primeiro passo para transformá-lo. E, sobretudo, é um testemunho da importância das Ciências Sociais em tempos em que a democracia, a liberdade e a ciência são constantemente desafiadas.
Texto: Alexsander Marques