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Campus de Cascavel

Unioeste registra maioria feminina entre acadêmicos e destaca desafios de permanência universitária

  • Texto: Lindiagane Silveira
  • Fotos: Lindiagane Silveira/Arquivo pessoal da acadêmica
  • Chapéu da Notícia: Campus de Cascavel

Emanueli Aparecida Haubert de Franca, aprendeu cedo a cuidar dos outros. Aos 16 anos, já era casada. Aos 19, tornou-se mãe pela primeira vez. Entre trabalho, casa e a criação das filhas, frequentar uma universidade parecia algo distante, quase pertencente à vida de outras pessoas. 

Durante quase vinte anos, estudar foi um desejo silencioso, adiado pelas responsabilidades diárias. Hoje, aos 43 anos, Emanueli ocupa uma carteira no curso de Enfermagem da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus Cascavel, tornando-se a primeira pessoa da família a chegar ao ensino superior.

Entre aulas e estudos, divide a rotina com as tarefas domésticas e o cuidado com a sogra, que vive com a família após sofrer um acidente vascular cerebral. Muitas vezes, sai de casa sem almoçar para conseguir chegar às atividades acadêmicas. “Não é só entrar na faculdade”, diz. “É conseguir continuar.”

A frase sintetiza uma realidade pouco visível nas estatísticas educacionais. Embora a presença feminina nas universidades brasileiras tenha crescido de forma constante, os números não revelam o percurso necessário até a sala de aula nem os desafios para permanecer nela.

No campus da Unioeste em Cascavel, as mulheres já são maioria: em 2026, são 4.065 mulheres e 2.172 homens, com as acadêmicas representando cerca de 65% do total de estudantes. O cenário acompanha uma tendência nacional e reflete mudanças no perfil do ensino superior público.

Dados do Censo Demográfico de 2022 indicam que essa predominância começa antes mesmo da universidade. Em Cascavel, mulheres apresentam níveis de escolaridade superiores aos dos homens na população adulta, sendo maioria entre quem concluiu o ensino médio e o ensino superior.

Por trás dos números estão trajetórias como a de Emanueli, marcadas por interrupções, maternidade, trabalho precoce e recomeços. Para ela, voltar a estudar surgiu primeiro como necessidade. “Eu percebi que precisava ter uma profissão para me sustentar. Estudar virou o jeito de mudar de vida”, conta. 

A decisão veio após anos em um relacionamento marcado por violência e controle, período em que estudar era desencorajado. Retornar à sala de aula depois de duas décadas longe dos estudos trouxe inseguranças. “Eu pensava: o que estou fazendo aqui? Achei que não ia dar conta.” Emanueli não desistiu. Hoje, define a universidade como um divisor de águas. “A cabeça muda. A gente aprende a se posicionar e a pensar diferente.”

Para a professora Solange Reis Conterno, pesquisadora das relações de gênero, a presença feminina no ensino superior faz parte de uma transformação histórica construída ao longo de gerações. Até a década de 1960, a universidade era predominantemente masculina; a mudança ocorreu gradualmente, impulsionada pela ampliação do acesso à educação e pela inserção das mulheres no mercado de trabalho. “A gente vê as mulheres ocupando os espaços”, afirma. “Não é que estejam tirando lugar de alguém, mas conquistando o seu.”

Apesar dos avanços, desafios permanecem. Mesmo com maior escolarização, mulheres ainda recebem, em média, salários inferiores aos dos homens e frequentemente acumulam responsabilidades familiares que impactam a trajetória acadêmica. “A universidade não é uma ilha. Ela reproduz o que está lá fora”, explica a professora, destacando que o desafio atual é garantir não apenas o acesso, mas condições reais de permanência.

Ao falar da própria história, Emanueli não vê a universidade como ponto final, mas como caminho em construção. Para outras mulheres que adiaram os estudos, deixa um conselho simples: “Vai com medo mesmo. A gente acha que não vai dar conta, mas dá. Só precisa começar.”

Depois de duas décadas acreditando que a universidade era distante demais, ela agora ocupa diariamente seu lugar em sala de aula, parte de uma mudança silenciosa que acontece história por história.

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