Em
algumas regiões do Brasil o plantio direto é conhecido há muito
tempo, pois essa técnica foi introduzida no nosso país no início dos
anos 1970 na Região Sul. Desde então, a adoção por parte dos
agricultores tem sido cada vez mais crescente, alastrando-se até a
Região dos Cerrados. Hoje, a área agrícola sob Plantio Direto no
Brasil é de aproximadamente 9 milhões de hectares.
O
Plantio Direto é a semeadura, na qual a semente é colocada no solo não
revolvido (sem prévia aração ou gradagem leve niveladora), usando-se
semeadeiras especiais. Um pequeno sulco ou cova é aberto com
profundidades e larguras suficientes para garantir a adequada cobertura
e contato da semente com o solo.
Note
que no Plantio Direto não se usa os implementos denominados de arado e
grade leve niveladora que são comuns na agricultura brasileira e no
preparo do solo antes da semeadura. Aliás, uma vez adotado o Plantio
Direto, ele não deve ser utilizado intercalado com arado, grade
niveladora, grade aradora ( ou grade Rome). Devemos entender que a
manutenção de restos de culturas comerciais (ex. trigo, milho) ou
adubos verdes (ex. aveia, milheto) na superfície do solo é importantíssimo
para o sucesso do plantio direto. Ou seja, a superfície do solo deve
ficar grande parte coberta com palha. Esse requisito estando atendido,
implementos sulcadores (ex. escarificador) podem ser utilizados para
quebrar eventuais camadas de solo compactadas. Assim, o termo plantio
direto ("direct drill" ou "siembra directa") é mais
apropriado que o preparo zero ("no tillage" ou "cero
labranza").
Visando diferenciar do Plantio Direto, para o solo onde
se passa o arado e depois passa-se várias vezes a grade leve
niveladora, diz-se que o solo está sob Plantio Convencional.
Para
entendermos o aparecimento do Plantio Direto é preciso resgatar a
História do Plantio Convencional, que é o preparo do solo para a
semeadura e, basicamente, se trata de aração e gradagem. Um dos
maiores benefícios do arado é o controle de plantas daninhas, onde,
por possibilitar o revolvimento do solo, ele permite a eliminação de
plantas que cobrem uma área e, assim, possibilitar a semeadura e o
crescimento de uma determinada planta de interesse para o cultivo (ex.
milho, trigo), livre de concorrência por água e nutrientes com outra
planta não desejável (normalmente denominada planta daninha, erva
daninha, inço ou mato).
O
solo arado fica livre de plantas daninhas, mas, ao mesmo tempo, ele fica
livre de qualquer cobertura vegetal. Numa região tropical, onde se tem
chuvas fortes e concentradas num período do ano, essa situação é ideal para a ocorrência
da erosão, pois o impacto da gota da chuva num solo descoberto resulta
num encrostamento ou selamento da superfície do solo. A fina crosta que
se forma é suficiente para diminuir a infiltração de água no solo.
Assim, a água da chuva se acumula e forma a enxurrada que carrega solo,
semente e adubo para rios e lagos.
No
Plantio Direto o uso de herbicidas e uma semeadora específica, é possível
semear milho, soja, feijão, trigo e aveia sem necessidade de preparar o
solo, ou seja, sem aração e gradagem. Para se ter uma idéia do
procedimento, na época de plantio, o agricultor aplica um herbicida e
espera as plantas que ocupam a área sequem. Com o auxílio de um trator
passa-se um rolo-faca ou uma roçadeira para espalhar
a palha seca. Em seguida, com uma semeadora de Plantio Direto, semea-se
determinada cultura (ex. soja) "rasgando-se" em linha a palha
que cobre o terreno e depositando a semente e adubo no pequeno sulco.
Grande parte do terreno fica coberto de palha (cobertura morta ou "mulch")
e protegido da erosão, pois, se houver uma chuva forte, o impacto da
gota da chuva será amortecido pela palha antes de atingir a superfície
do solo.
Muitos
agricultores que plantam milho, soja, trigo, feijão e arroz estão
adotando o Plantio Direto, não apenas por isso, mas também, por ser um
pouco mais rentável que o Plantio Convencional, porque:
- devido
à existência de palha cobrindo o solo, há melhor retenção de
umidade havendo maiores rendimentos em anos secos.
- não
ocorre erosão e, assim, não há necessidade de replantio, que
implica em novo preparo de solo com conseqüente maior gasto de
combustível, sementes e adubos. Isto levará a um aumento considerável
nos custos de produção e não livrará o agricultor de fracasso na
safra devido ao plantio fora de época.
- enquanto
no Plantio Convencional é possível semear 3 a 6 dias após uma
chuva forte, no Plantio Direto é possível semear 6 a 12 dias após
uma chuva, resultando no aproveitamento de melhores épocas de
plantio e no plantio de maior área no mesmo espaço de tempo,
principalmente quando ocorrem chuvas esparsas.
Importante
mencionar que o sucesso que o Plantio Direto vem obtendo se deve à
intensa colaboração entre agricultores, pesquisadores, extensionistas
e representantes de empresas privadas (ex. fabricantes de semeadeiras,
herbicidas).
Devido aos aspectos de implantação, o Plantio
Direto é de maior custo a curto prazo (até quatro anos), onde os
custos resultantes do maior consumo de herbicidas podem superar a
economia obtida pelo menor consumo de combustíveis e uso de horas-máquina.
Entretanto, grande parte dos estudos comparativos não consideram
fatores que poderiam reverter esse quadro, onde, no Plantio
Convencional, normalmente há operações de replantio: novo preparo de
solo, gastos em combustíveis, sementes, adubos, assim como também a
perda de produção devido ao plantio fora da época.
Embora
seja de custo relativamente mais alto nos primeiros quatro anos de
implantação, é possível administrar este alto custo sem levar o
empreendimento rural à bancarrota. O segredo reside na forma como o
Plantio Direto é adotado. Outro aspecto importante é o fato de o
Plantio Direto diminuir o consumo de herbicida com o passar dos anos,
principalmente combinando Plantio Direto com rotação de culturas.
Enquanto isto o Plantio Convencional mantém sempre o mesmo consumo,
exceto quando há replantio, que, nesse caso, pode aumentar o consumo.
Não
pretendemos aqui descrever todos os detalhes para a adoção do Plantio
Direto, mas oferecer informações importantes. Cada propriedade
agrícola (em alguns casos, cada gleba na propriedade rural) é um caso,
ou seja, cuidado com as generalizações típicas dos famosos
"pacotes tecnológicos". Devemos considerar que:
1o.) O agricultor deve adquirir uma semeadeira de Plantio
Direto e se informar sempre sobre o sistema que, pelo fato de se tratar
de semear sem prévio revolvimento do solo, exigirá profundo
conhecimento sobre o emprego de processos integrados de controle de
plantas daninhas e manejo da palha. Há no Brasil diversas Associações
de Plantio Direto, Clubes de Amigos da Terra e Instituições de
Pesquisa e Extensão Rural que podem auxiliar em muitas dúvidas. Por
exemplo:
2o.)
Evitar implantar o Plantio Direto em toda a área da propriedade agrícola.
Normalmente se implanta em aproximadamente 10% da propriedade. O tamanho
da área deve levar em conta a capacidade técnico-econômica do
agricultor em adequar a fertilidade química e física do solo, além do
manejo da palha e principalmente do controle integrado de plantas
daninhas, que envolve não apenas o uso de herbicidas, mas também o próprio
manejo da palha;
3o.)
Evitar implantar em solos mal drenados;
4o.)
A adequação da fertilidade física consiste no seguinte:
- Ausência
de danos na estrutura do solo, como os ocasionados por colhedeiras
ou caminhões carregados, operados em solos muito úmidos;
- Solos
cheios de sulcos ou valetas de erosão devem ser adequados ao uso
desta técnica;
- Eliminação
da compactação do solo ou de camadas adensadas que afetam o
rendimento das culturas. Normalmente, devido aos longos anos sob
Plantio Convencional, onde a aração sempre é feita a uma mesma
profundidade (18-20 cm), surge, nessa profundidade o que se chama de
"pé-de-arado", que pode ser constatada cavando-se um
pequeno buraco com um enxadão. Os primeiros 15 cm de solo serão
facilmente removíveis, mas, ao se atingir a profundidade de 18 cm,
o golpe do enxadão no solo sofrerá forte resistência à penetração
devido à existência de uma camada mais adensada. Esta camada
impede o crescimento radicular em profundidade, que é importante,
pois, assim, a planta, que poderá absorver água de camadas mais
profundas, pode sobreviver a uma situação de estiagem prolongada
ou a um veranico. O rompimento dessa camada compactada pode ser
feito através de uma aração a 25 cm ou escarificação
5o.)
A adequação da fertilidade química consiste basicamente no
seguinte:Antes de se iniciar o Plantio Direto deve-se fazer a correção
da acidez do solo e a neutralização do alumínio trocável constatados
pela análise do solo, através de uma incorporação, a mais profunda
possível, de metade da quantidade necessária de calcário através da
aração e outra metade através da gradagem;
6o.)
Deve-se conhecer quais são as espécies de plantas daninhas existentes
na área identificando aquelas que podem oferecer maior dificuldade no
controle, devido às características da própria planta ou devido à
intensidade de infestação;
7o.)
Os cálculos de vazão e regulagem do pulverizador, além da escolha de
bicos apropriados, devem ser feitos com bastante capricho;
8o.)
A colhedeira deve ter um picador e distribuidor de palha;
9o.)
O agricultor deve adotar a rotação de culturas, ao contrário de anos
sob monocultura intercalada por pousio ou sucessão de culturas no
estilo soja-trigo. A rotação de culturas implica em introduzir a adubação
verde no inverno ou verão, intercalada com o plantio da cultura
principal, visando formar palha ou cobertura morta (ponto imprescindível!!),
que é uma grande arma contra o desencadeamento da erosão e favorece a
retenção de água no solo por mais tempo. Uma cobertura espessa de
palha (2-3 cm) também oferece auxílio no controle da infestação de
plantas daninhas, através do impedimento da passagem da luz
impossibilitando a germinação de sementes de plantas daninhas (ex.
palha de aveia impede a germinação de picão-branco e serralha). Os
adubos verdes eficientes na formação de palha são, por exemplo, as
gramíneas como aveia (Região Sul) e milheto (Região Centro-Oeste).
Outra função do adubo verde é poder propiciar economia na adubação
nitrogenada. Por exemplo, as leguminosas como tremoço (Região Sul) e
crotalária (Região Centro-Oeste) antecedendo a principal cultura (ex.
milho) podem proporcionar um melhor aproveitamento do nitrogênio pelo
milho.
10o.)
O esquema de rotação de culturas deve ser bem planejado,
considerando-se as características agroecológicas regionais e condições
sócio-econômicas do agricultor. Deve-se procurar combinar plantas de
adubos verdes de diferentes famílias (ex. gramíneas e leguminosas) com
a cultura visando atender 3 requisitos básicos:
- Favorecer
o controle da erosão e o equilíbrio da fertilidade do solo;
- Favorecer
a produtividade das lavouras pela interrupção do ciclo de pragas,
doenças e plantas daninhas;
- Assegurar
a manutenção do balanço e reciclagem de nutrientes.
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