"O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado aos seus semelhantes: 'Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém!'".³
Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, ainda convivemos com a idéia de que junto com o muro caiam as contradições da divisão do mundo em dois pólos. Do lado Oriental o Comunismo e do lado Ocidental o Capitalismo. Com a queda do também chamado "muro da vergonha" veio uma tentativa dos países capitalistas de colocar fim a qualquer alternativa viável contrária ao capitalismo.
O Muro de Berlim foi construído após a II Guerra Mundial para dividir a cidade em duas áreas de influência conforme foi citado anteriormente. Se esse muro representou a diferença entre duas potências econômicas, logo, entende-se que fossem dois projetos em disputa e que aquele que apresentasse as melhores alternativas para solucionar os problemas enfrentados pelas diversas nações em todo o mundo.
Essa é a forma que nos foi apresentada a questão e convivemos até hoje com a idéia de que a queda do muro foi a supremacia do Capitalismo sobre o Socialismo. Esse por sua vez, pagou o preço da "História dos vencidos" e até os dias atuais vem herdando as desconfianças e descrédito por ter sido "derrotado" na disputa pela hegemonia mundial. O chamado Socialismo Soviético feneceu alguns anos após a queda do muro de Berlim, porém a causa do seu fim não foi pela inferioridade em relação ao capitalismo e sim pelas diversas contradições gestadas ao longo de quase um século onde a Revolução Russa liderada por Lênin em 1917, passou por uma transmutação imposta por Stálin gerando outras contradições incondizentes com qualquer proposta de socialismo.
Ao longo do tempo em que o muro permaneceu em pé e até hoje a impressão que fica é de que o muro foi uma invenção das disputas entre os dois projetos, porém, ao longo da história da humanidade, podemos citar várias formas físicas de muro. Eles já eram comuns na Grécia e em Roma na antiguidade onde serviam de barreira de proteção para invasões imperialistas externas.
No entanto, foi na Idade Média que os muros em volta das cidades ganharam um outro sentido, além da proteção, eles passaram a servir como uma espécie de limite das cidades medievais. Dentro desses muros passaram a desenvolver atividades econômicas diferentes daquelas habituais referentes ao cultivo da terra. Era o surgimento das atividades de manufatura e do comércio de mercadorias que não necessitavam essencialmente da terra para serem produzidas. É esse o contexto que nos fala J.J. Rousseau. O surgimento da chamada burguesia. Surgida de um outro extrato social, se coloca entre a nobreza e o restante da população. É essa mesma burguesia que se favorece das relações sociais em desenvolvimento e alterou a seu favor as formas de subsistência de toda a sociedade instituindo as modernas formas de Propriedade Privada que nos fala Rousseau.
A construção do muro de Berlim não foi nenhuma novidade do século XX, os muros já vem separando a humanidade a milênios. Se na Antiguidade servia para as pretensões Imperialistas das conquistas greco-romanas, na Idade Média foram às barreiras necessárias para abrigar os primeiros passos do Capitalismo, o muro de Berlim serviu para separar dois mundos em conflito que buscavam seus processos de expansão. Nos dias atuais, os muros servem para conter os antagonismos que todo esse processo de "desenvolvimento" causou seja ao separar o México dos Estados Unidos, seja para separar as periferias cariocas das áreas de turismo, ou até mesmo da imensa e intransponível muralha que separam as desigualdades sociais em todo o "nosso" Planeta.