A crise destrutiva do capital e os limites da socialdemocracia

Maria José Castelano

Nosso propósito é apresentar alguns dos mecanismos e estratégias de poder utilizadas pelo Estado e pelas classes dominantes para combater a crise do capital que, segundo a mídia, parece dar sinais de recuperação. Para iniciarmos a discussão, é necessário responder a seguinte indagação - qual o custo social do apaziguamento da atual crise do sistema financeiro?

A crise do capitalismo mundial exemplifica, de forma dramática, o fracasso do livre mercado global, que resultou em depressão econômica nos Estados Unidos, obrigando governos, inclusive o norte americano, à intervenção estatal.

Qual o papel do Estado diante da crise? A última crise já queimou cerca de US$ 4 trilhões transferidos dos cofres públicos para o sistema financeiro. Até o momento somente os interesses das grandes corporações têm sido atendidos, contrariando o lema "Put the people first" proclamado pelas manifestações recentes que expressam a indignação de crescentes parcelas da sociedade com as políticas de penalização das maiorias.

Os pacotes de resgate do sistema financeiro foram concebidos no FMI, em articulação com o G8. O absurdo é que de acordo com Samir Amin (CACCIA BAVA, 2009), as medidas para salvar essas instituições financeiras foram concebidas por elas mesmas, que controlam a maioria dos recursos públicos destinados a socorrê-las. E mesmo tendo sido essas empresas as principais responsáveis pelas múltiplas e simultâneas crises que assolam o planeta, em todas as recomendações de como enfrentar essa situação não há uma palavra no sentido de limitar suas ações ou controlá-las a partir do interesse comum.

Há cerca de 500 grandes corporações globais que respondem em conjunto por grande parte da produção mundial - e que controlam o planeta - se reduzem em número, e as maiores dentre elas aumentam seu poder. Nesse conjunto se destaca 66 institutional Investors, que gerem 75% das movimentações especulativas planetárias. (CACCIA BAVA, 2009, p.9)

As conseqüências dessa concentração de riqueza e poder podem ser avaliadas pela situação de extrema pobreza de cerca de 3 bilhões de pessoas com insuficiência ou sem renda para ter acesso aos produtos alimentícios, moradia e a água potável.

Os limites históricos do capitalismo estão contidos nas relações de produção baseadas na propriedade privada dos meios de produção e na valorização do capital. Portanto,a produção não é para a maioria da sociedade, mas para a valorização e acumulação do capital, sendo que "[...] a conservação e a valorização do capital - valor repousam sobre a expropriação e o empobrecimento dos produtores". (MARX, 1985)

Segundo ainda análise do pensador alemão do século XIX, o modo de produção capitalista levaria o mundo a uma economia globalizada e este processo geraria conflitos violentos, crises econômicas e injustiça social de ordem generalizada. Só para mencionarmos os fatos mais recentes, na última década, experimentamos e vivenciamos a crise financeira do leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise econômica Argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos empréstimos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra.

Esse conjunto de informações vem ao encontro do que queremos afirmar: as crises do capitalismo são inerentes ao sistema e demonstram suas contradições. Portanto, a superação da crise recém instaurada, ou seja, da lógica do capital, só pode pautar-se na contestação das premissas liberais nas quais o mercado é o mecanismo ideal de regulamentação da economia e da vida social. Ademais, jamais se poderia obter justiça social sem uma política econômica eficaz voltada a uma melhor distribuição da riqueza na sociedade.

Além das questões elencadas, preocupa-nos o fortalecimento da articulação de movimentos de extrema-direita, somadas a fragilidade do pensamento de esquerda. Não estamos falando do fim de uma perspectiva de esquerda, mas de sua submissão ao discurso uníssono burguês da socialdemocracia. Segundo artigo recente de CACCIA BAVA (2009) há em curso um movimento importante por parte do grande capital, que preocupado em substituir o ideário neoliberal, se antecipa as previsíveis comoções políticas e busca legitimar a globalização e o crescimento como objetivo e propõe o alargamento da social democracia, com discurso de dar maior atenção à pobreza e às políticas sociais. Compreendemos que as saídas propostas pela socialdemocracia global, liberdade do mercado e democracia formal, a partir de uma reelaboração d'A Declaração Universal dos Direitos da Cidadania é um novo modelo de legitimação política do capitalismo atual.

Torna-se necessário trazer à memória situações ocorridas no cenário político-alemão no pós Primeira Guerra Mundial, com a formação de partidos ultranacionalistas, radicalmente contrários ao socialismo, em que um desses partidos chamava-se Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Partido Nazista) liderado por Hitler.

Em 1932, havia na Alemanha mais de 6 milhões de desempregados. Com o agravamento da crise, os milhões de desempregados, bem como muitos integrantes dos grupos dominantes, passaram a acreditar nas promessas de Hitler de transformar a Alemanha num país rico e poderoso. Assim, nas eleições parlamentares de 1932, o Partido Nazista conseguiu obter 38% dos votos (230 deputados), mais do que qualquer outro partido. Em 1934, o Führer lançou mão de uma propaganda sedutora e do uso da violência policial (SS -tropas de elite e SA -tropas de choque) e da Gestapo (polícia secreta de Estado) para prender, torturar e eliminar os inimigos do nazismo, inclusive, socialistas e comunistas.

Referências Bibliográficas
CACCIA BAVA, Sílvio. A crise e as oportunidades. IN: Le Monde Diplomatique, junho, 2009, p.9-11.
MARX, K. O Capital. São Paulo: Nova Cultural, 1985.



Ascensão do Neoconservadorismo

Fábio Ruela de Oliveira

A história nada mais é do que uma constante indagação dos tempos passados em nome dos problemas e curiosidades - ou mesmo das inquietações e das angústias - do tempo presente que nos cerca e assedia. (BRAUDEL, 1988)

Assim como Fernand Braudel o eminente historiador Eric Hobsbawm também chama a atenção para a importância do presente no trabalho com a história. Na introdução do seu Era dos Extremos, destaca que "o ofício do historiador é lembrar o que outros esquecem", salientando assim o papel do historiador na atualidade, principalmente porque em nosso tempo atual "os jovens crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem." (HOBSBAWM, 1995, p.13). Considerando tais apontamentos notamos então que é a observação atenta do presente que conduz o historiador a pinçar lembranças de passados próximos e distantes, refletindo em que medida estes tendem a se repetir, porém com formas distintas, mais brandos ou intensos, como tragédias ou farsas.

Este mural do Observatório do Mundo Contemporâneo propõem esse exercício na observação das investidas conservadoras nos dias de hoje. Na leitura dos principais jornais e revistas destes últimos anos, especialmente dos últimos dias, mesmo que seja uma leitura superficial, notaremos sem dificuldades a ocorrência de alguns fenômenos e eventos que nos lembram um passado próximo, de intolerância, repressão e xenofobia.

Primeiro nota-se o clima policial que vem crescendo nos últimos tempos. O badalado filme Tropa de Elite (2007) polarizou grupos e opiniões que apostam no programa de "tolerância zero" personificado na figura do Capitão Nascimento. Outra manifestação explícita da atmosfera repressiva foi o caso USP, com a permanência da Polícia Militar na Universidade de São Paulo e a dispersão violenta dos manifestantes, estudantes, funcionários e professores daquela universidade, a mando da reitora Suely e do governador Serra, nos meses de maio e junho. A última vez que tal enfrentamento se deu foi em 1968, quando a ditadura civil-militar brasileira entrava na sua fase mais violenta e sombria.

Outras manifestações no plano internacional são as ações permanentes de opressão bélica aos palestinos, aos afegãos e aos iraquianos, operadas por israelenses e estadunidenses. Na Rússia de Putin e Medevedev "multiplicam-se os grupos que pregam o expansionismo sob um regime ultranacionalista ou neofascista" (Carta Capital, nº. 547, p.78-81). Em todo o globo a crise financeira mundial desencadeia uma onda de desemprego em grande escala, cujas conseqüências sociais são imprevisíveis. As principais potências européias como França, Itália e Espanha reeditam políticas de xenofobia com apoio de amplos setores de suas populações, tanto que há uma tendência de ampliação das cadeiras de centro-direita no Parlamento Europeu. Completando tal cenário, temos o radicalismo conservador do atual Papa Joseph Ratzinger, o Bento XVI, que nos anos 1940 foi membro da juventude hitlerista e na estrutura da Igreja foi líder da "Congregação para a Doutrina da Fé", ou a antiga Inquisição. Além de intensificar o conservadorismo característico desta instituição religiosa, Ratzinger reabilitou bispos lefebvrianos que negam a ocorrência do holocausto judeu.

Na América Latina podemos citar dois casos de guinada conservadora: a Bolívia, cujo governo de Evo Morales (primeiro índio eleito como Chefe de Estado) foi desestabilizado e quase derrubado por setores da elite econômica da província de Santa Cruz. No Peru, enquanto escrevemos estas linhas, o governo de Alan Garcia empreende uma ofensiva policial contra os manifestantes indígenas peruanos que se organizavam contra as políticas de privatização dos recursos naturais daquele país.

Para finalizar, não podemos esquecer a polêmica do editorial da Folha de São Paulo, de fevereiro deste ano, que referiu-se ao período de ditadura como "ditabranda" e reacendeu os ânimos de revisionistas e neocons, como o do historiador da UFSCAR/SP Marco Antonio Villa. No artigo intitulado "Ditadura à Brasileira", neste mesmo jornal no dia 05/03/2009, Villa simplesmente nega a história recente do país, ao minimizar os efeitos da ditadura brasileira em comparação com outras ditaduras latino-americanas. E ainda afirma que as características da ditadura brasileira são independentes do processo da Guerra Fria.

Devemos ficar atentos com essa mobilização conservadora e lembrar que em outros momentos de crise econômica foram os conservadores e suas análises equivocadas que nos conduziram a catástrofes e atrasos na construção de uma democracia ampla. Aqueles preocupados com a radicalização da direita conservadora devem se reorganizar e se contrapor ao seu avanço.

Referências Bibliográficas
BRAUDEL, Fernand. O Espaço e a História no Mediterrâneo. Trad. Marina Appenzeller. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991 (tradução Marcos Santarrita; revisão técnica Maria Célia Paoli). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
Folha de São Paulo - Edições de Fevereiro de 2009 e de 05 de março de 2009.
Revista Carta Capital - Edições do primeiro semestre de 2009.