Nos últimos meses a mídia abordou amplamente a pandemia provocada pelo vírus Influenza A (H1N1), que causou alerta e medo na população. Destacamos a relevância de informações sobre a nova gripe, no entanto, lançamos um questionamento: será que o Ministério da Saúde/Estado e a mídia informaram efetivamente a sociedade sobre este surto viral? Neste sentido, o objetivo deste mural, é refletir sobre esta cobertura massiva, propondo analisar o significado do grande enfoque sobre esta doença e os interesses de diferentes grupos por trás desta intensa difusão de informações. Também questionamos a omissão em relação aos demais problemas sociais e de saúde pública, que em muitos casos afetam um maior número de pessoas, e que não são tratados com a devida atenção.
De acordo com o relatório de 2005, da Organização Mundial da Saúde (OMS), são inúmeros os registros de pandemias na história da humanidade, e “as mais bem documentadas foram as de 1918 (H1N1, a gripe espanhola), 1957 (H2N2, a gripe asiática), e 1968 (H3N2, a gripe de Hong Kong)”. Segundo o historiador Mike Davis, a mais recente aparição, da gripe de tipo A, se deu em 1997, nominada “gripe aviária”.
A aparição da Influenza A, em 1997, se deu a partir do vírus H5N1. O surto da gripe aviária gerou um alerta nas autoridades mundiais de saúde, entre elas a OMS. A iniciativa de combate e prevenção da gripe naquele momento gerou debates sobre vacinas e medicamentos que serviriam para o controle desta gripe.
Com a Influenza A (H5N1), muitas empresas farmacêuticas criaram medicamentos para o combate a doença, dentre as empresas mais famosas estava a Roche. É neste momento que a Roche compra a patente dos direitos à fabricação do Tamiflu. A indústria farmacêutica Roche, conseguiu e consegue lucrar milhões com este misterioso remédio, chamado Tamiflu.
Doze anos depois de uma gripe de tipo A assolar o mundo, surge no México o primeiro caso da gripe suína (H1N1), também de tipo A. Antes mesmo do surgimento da nova gripe algumas autoridades de controle sanitário e a enfermidades alertavam para os perigos que existiam de a gripe dos porcos se transformar em gripe humana.
As denúncias feitas pelas agências de enfermidades e sanitárias se davam com base na grande quantidade de medicamentos (antibióticos, antigripais, hormônios, etc.) que são aplicados em varas inteiras de porcos, para a diminuição das mortes entre os animais. A aplicação desses medicamentos, de acordo com essas agências, geraria mutações nesses vírus.
Segundo o mesmo relatório da OMS, citado anteriormente, o risco de uma pandemia assolar a sociedade existe desde 2005, e os Estados e a sociedade deveriam estar preparados para este ímpeto. Porém, no contexto neoliberal em que os Estados Latino-americanos estão inseridos, não há um comprometimento efetivo na promoção de políticas públicas, que viabilizem para a população direitos mínimos de sobrevivência e bem estar social. A saúde pública no Brasil carece de amplos investimentos, que sabemos, não estão nos projetos político-partidários dos governantes que chegam ao poder.
A desigualdade social no país é histórica, e no sistema “democrático” em que vivemos, atendimento médico, dentário, farmacêutico e acesso a equipamentos (óculos, dentaduras, cadeiras de rodas, muletas e etc.) são moeda de troca e barganha entre políticos e eleitores corruptos. Desta forma, a sociedade perpetua um modelo de Estado que não tem compromisso com uma transformação social, que garanta seguridade mínima aos cidadãos, tais como: justiça social, educação e promoção de saúde. Neste sentido, tornou-se conveniente manter um modelo de exploração e favorecimento de uma parcela restrita sobre amplos segmentos da sociedade.
Este modelo de sociedade, voltada ao favorecimento de alguns e a exploração de outros, nos remete a pensar em que medida as políticas públicas de saúde favorecem a alguns grupos específicos, como por exemplo, a indústria farmacêutica. Vale ressaltar que o Estado não gera nenhuma política de promoção á saúde, em contraposição a postura deste Estado é a de esperar que a sociedade adoeça, para depois buscar alternativas de combate às enfermidades. Seria menos oneroso para o Estado promover à saúde, afirmando “as relações entre saúde e condições de vida, [...] a elaboração de políticas públicas intersetoriais, voltadas à melhoria da qualidade de vida das populações [...] incluindo o ambiente em sentido amplo, atravessando a perspectiva local e global, além de incorporar elementos físicos, psicológicos e sociais”. (CZERESNIA, 2003, p. 39 e 40)
Neste caso nos remetemos a pensar novamente a questão da gripe H1N1, em que a empresa Roche, que tem como seu sócio majoritário Donald Rumsfeld, Secretario da Defesa do governo George W. Bush, mentor da guerra contra Iraque, mantém a patente do remédio Tamiflu, principal medicamento no combate a Influenza A. E com isso, tem assegurado a garantia de grande lucratividade para seu conglomerado, e têm no Estado estadunidense seu principal financiador, e difusor da necessidade de compra e consumo deste medicamento, inclusive nos demais países da América. No caso do Brasil, a responsabilidade pela compra do medicamento provém dos recursos públicos, ou seja, somos nós, a sociedade quem paga a conta da compra destes medicamentos.
Ao analisar a relação entre os Estados, as indústrias farmacêuticas e a grande mídia faz-se necessário a seguinte reflexão: por quê no caso de uma pandemia “desta proporção” não se promoveu uma quebra da patente, pelo Estado, do Tamiflu, remédio que é considerado tão importante pelas autoridades da área da saúde, no combate ao vírus H1N1? Neste sentido, observa-se a omissão da OMS em relação a este problema. O que gera um questionamento: Este surto viral é tão impactante como foi veiculado pela grande mídia nos últimos meses?
Sabemos que doenças infecto-contagiosas, tais como: cólera, febre amarela, dengue, doença de chagas, malária, e a própria gripe sazonal, atingem milhares de pessoas ao ano, em muitos casos ocasionando óbito. No entanto, estes males praticamente não são mencionados pela grande mídia, e quando são tratados, não recebem o destaque merecido. Outro problema de proporção mundial é a fome, que mata milhares de pessoas por dia, o que não ocorre pela escassez de alimentos, e sim, devido a má distribuição de rendas. E Estes temas tão caros a sociedade, não recebem a abordagem que lhes são devidas, seja pelos Estados/sociedades, ou pela grande mídia.
Qual o motivo da grande mídia não tratar destas questões e em contrapartida dedicar tanta atenção ao “caso da gripe H1N1”? Parece que a razão encontra-se na baixa lucratividade gerada pelas populações de baixa renda, que não veiculam propagandas, não promovem concessões em benefício destas empresas. Situação análoga observamos com profissionais que tratam da saúde, que em sua maioria não se aperfeiçoam em infectologia e doenças tropicais, porque o tratamento destas doenças não são atividades lucrativas e não geram status.
Neste sentido, o que precisamos não é de uma indústria farmacêutica forte, e nem de uma grande quantidade de medicamentos, prescritos pelos médicos. Também não precisamos de uma grande mídia sensacionalista que visa lucro até mesmo em questões tão séria como a saúde pública. O que necessitamos é de um Estado que não privilegie o interesse de determinados grupos, e que não relegue aos indivíduos a responsabilidade de tomarem conta de si mesmos, como entes isolados do coletivo. Carecemos de um Estado que promova a saúde e não a doença!