Índia: História, Cultura e Religião Milenares

Alessandra Gasparotto
Alexandre Blankl Batista

A história e a cultura indianas são pouco conhecidas entre os ocidentais. Não apenas os elementos histórico-culturais, como também tudo o que diz respeito ao "orientalismo", nas palavras do intelectual palestino Edward Said, são freqüentemente vistos como alegorias exóticas frente aos costumes ocidentais. Algumas dessas alegorias, personagens ou apropriações da cultura do oriente nos chegam de maneira um tanto distorcida da original. De forma mal amanhada, ouvimos falar das personalidades indianas, bastante difundidas no ocidente, as quais se podem citar Sidarda Gautama (o Buda), Mahatma Gandhi (guru da não-violência e da resistência contra a ocupação britânica), Ravi Shankar (músico que influenciou os Beatles no final dos anos 60), Indira Gandhi (Primeira-ministra da Índia de 1966 a 1977 e de 1980 a 1984), entre outros, que necessitam ter as suas atuações contextualizadas na história da Índia para uma melhor compreensão de suas trajetórias individuais. Similarmente a esse descuido ocidental com a história e cultura orientais, chama a atenção, recentemente, a maneira como a novela das oito, da Rede Globo de televisão, tem abordado os costumes indianos.

A forma como a novela tem tratado a religião e a cultura manifestos nos personagens de Caminho das Índias destaca muito a alegoria e o suposto exotismo dos costumes indianos. Há o uso e o abuso da cultura do "diferente", sendo enfatizada a incompatibilidade dos costumes orientais com os ocidentais. Visto desta forma, é difícil inverter os papéis, ou seja; a partir do oriente, e de sua lógica e complexidades próprias, vislumbrar o ocidente como a cultura distinta e exótica. Somado a isso, procura-se sublinhar o estilo das roupas, manifesto no "dicionário da moda atual", ou a organização em castas como um empecilho esdrúxulo e extravagante, o que contribui para aumentar aquela visão do oriente, vista a partir do ocidente, que descontextualiza os costumes e práticas próprios de uma cultura, resultado de milênios de história, confluências e sincretismos.

O objetivo deste mural do OMC é, na medida do possível, dar vazão a esses elementos que, muitas vezes, escapam desse "olhar do ocidente". Utilizamos como gancho para problematizar a história, a cultura e a religião indianas, exatamente a forma sumária como as mesmas são retratadas pela "cultura ocidental" e, mais especificamente, pela atual novela das oito da Rede Globo - Caminho das Índias. Neste texto, procuramos apanhar alguns momentos da História da Índia, em que tentamos contextualizar certos personagens conhecidos entre os ocidentais e evidenciar o papel da religião, enfatizando a necessidade de entendermos a dinâmica religiosa, cultural e histórico-política juntas. Nos demais textos do mural, sublinham-se aspectos da religião hindu, cultura indiana, as temáticas das telenovelas brasileiras e a posição estratégica dos Estados Unidos frente às nações populosas e com grande potencial de mão-de-obra, como é o caso da Índia.

Dos tempos remotos à Índia contemporânea

O passado remoto da Índia remonta aos séculos IV e III a.C., em que há vestígios de uma civilização que começa a tomar forma no vale do Indo. Esta tem seu ápice de desenvolvimento entre os anos 3000 e 2000 a.C. Tal civilização, chamada de dravidiana, dirigida essencialmente por sacerdotes, mostra indícios arqueológicos de que teria sido a precursora do hinduísmo. De seus vestígios materiais encontram-se as primeiras figuras esculpidas em barro de representações de deuses como Kali (divindade vinculada às noções de morte e de tempo) e Shiva (aquele que se incumbe da dança para movimentar o mundo). Essa civilização do Indo entrou em declínio entre 1500 e 800 a.C., época em que o local do vale e arredores foi invadido pelos arianos (arios), povo oriundo, provavelmente, da região central da Ásia.

Com a invasão dos arianos tem-se início a denominada civilização védica (2500-500 a.C.). A partir deste momento é que se originam os Vedas (poemas e hinos que regram e explicam o hinduísmo). O princípio fundamental do hinduísmo e de toda a cultura da Índia está fundamentado nos Vedas, compostos em sânscrito, atribuídos a Krishna, encarnação do deus Vishnu. Vale salientar que os deuses mais importantes da religião são exatamente Vishnu, além de Brahma e do já mencionado Shiva.

A importância de entendermos a relevância dos Vedas para a cultura contemporânea da Índia está no fato de que eles descrevem como devem ser os rituais religiosos e as normas sociais, atribuindo a supremacia de uma casta superior: a dos sacerdotes, chamados de brâmanes. O sistema de castas exerce forte influência na divisão social do país, embora não seja consenso político dentro da Índia. A norma que privilegia os brâmanes não permite ascensão social, vale para sempre e está definida pelo nascimento. Assim, o indiano descendente de uma casta inferior deve conformar-se e viver sua vida em penitência, pois sua condição foi determinada já antes do nascimento, dizem os Vedas, por não ter tido uma vida espiritual satisfatória em sua última passagem terrena.

Um momento importante, e de certa forma de ruptura, na história e na cultura religiosa indiana, se dá por volta do século VI a.C. com a criação das seitas budista e jainista. Ambas contestavam normas dos Vedas, como a supremacia dos brâmanes, embora partilhassem seus princípios filosóficos com o hinduísmo, aceitando essa religião como a originária de suas seitas. O budismo, criado pelo príncipe indiano Sidarta Gautama, nascido no sul do atual Nepal, fora mais difundido e, curiosamente, teve mais relevância fora da Índia do que propriamente no berço do território em que foi criado. Todavia, é mais uma dentre as muitas religiões por lá praticadas, com a observância de que o hinduísmo ainda é a religião dominante.

O budismo e o jainismo foram importantes questionadores da sociedade de castas naquela época e no decorrer dos séculos seguintes, fato relevante que, de certa forma, abalou as estruturas fundamentadas da supremacia dos brâmanes. Muito mais tarde, entre os séculos VIII e XII, outra religião, fruto de novas invasões, foi relevante para novos questionamentos à organização das castas indianas: o islamismo. Os muçulmanos não apenas penetraram no território, conquistando várias cidades, como conseguiram converter inúmeros indianos ao Islã. Além dos muçulmanos, outras duas invasões importantes em território indiano foram a dos Mongóis, entre os séculos XVI e XIX, os quais absorveram muito da cultura local, e a dos ingleses, em época de imperialismo pré-Primeira Guerra Mundial, os quais só saíram de lá há cerca de cinqüenta anos atrás.

Do Imperialismo à Independência

A influência inglesa sobre a Índia, na verdade, tem início já no século XVII, através de tratados comerciais com a região. Esses acordos, aos poucos, foram condicionando a Índia a perder sua autonomia política. Em meados do século XIX, os britânicos controlavam grande parte do território indiano e submetiam a população às regras de aduana e ao confisco de recursos naturais, antes pertencentes ao povo, e agora intermediados pelo comércio inglês. O sal, por exemplo, foi um dos recursos naturais proibido de ser produzido pelos hindus. Os mesmos eram obrigados a comprar o produto dos britânicos. Sob pena de descumprirem as "Leis do Sal", os indianos estavam sujeitos a brutais punições de violência física, repressão armada e prisão.

Neste contexto, em meio às reivindicações pela independência da Índia e resistência à ocupação britânica, destaca-se o líder Mahatma Gandhi, o qual consegue reunir multidões com um princípio filosófico muito simples: a não-violência. Sem usar de violência na resistência à ocupação britânica, Gandhi consegue, em um ato simbólico contra as "Leis do Sal", conduzir pacificamente uma multidão que caminhou 400 quilômetros até o litoral, no dia 6 de abril de 1930. Ao chegar, todos levantaram o punho erguendo junto punhados de sal, inspirando, através deste gesto, o povo indiano na direção de reivindicar seus direitos junto aos britânicos e legitimar seu apelo pela emancipação política da Índia.

Gandhi conseguiu com que grande parte dos indianos, embora não se revoltassem com brutalidade, desobedecessem simplesmente às ordens britânicas. Esse princípio de desobediência pacífica feriu severamente os interesses dos ingleses, os quais precisavam não apenas das riquezas naturais e do comércio, mas também da mão-de-obra da população indiana.

O envolvimento da Grã-Bretanha na Segunda Guerra Mundial servira muitas vezes de pretexto para que a independência da Índia não seguisse seu rumo. O cenário pós-guerra, de rechaçamento aos regimes autoritários e opressores, do qual a Inglaterra, pelo menos no discurso, condenava, criou uma postura dúbia: por um lado, no plano das idéias e do discurso, se defendia a liberdade e autonomia indianas; por outro, na prática, se mantinham monopólios comercias e a interferência política direta no país.

Diante desse quadro, a independência foi consolidada apenas em 1947, efetivando-se a primeira Constituição do país em 1950. O Estado e a Constituição que nasciam, no entanto, não vieram sem conflitos e contradições. Como resultado da emancipação do Império Britânico, a Índia sentiu na pele as dissidências resultantes das disputas religiosas e políticas. O saldo negativo foi a guerra civil, com inúmeras mortes e violência urbana, seguida da separação do Paquistão, o qual se tornou Estado independente e abrigou a maior parte dos muçulmanos da região. Além disso, no texto constitucional da Índia, tentou-se acabar com o regime de Castas, o qual, na prática, muito arraigado à cultura hindu, continua sendo seguido por boa parte da população, embora haja sua condenação por parte do Estado. Vê-se, assim, que os traços e elementos culturais, vigentes por milênios, não seriam e não serão tão facilmente substituídos ou abandonados, exatamente por sua condição hegemônica no comportamento e nos costumes que estão vinculados diretamente com a rotina, cultura e religião do povo.

A percepção de que as características culturais do hinduísmo são indispensáveis para criar-se uma visão de mundo e uma alternativa política compatíveis com o país resultou em sincretismos insólitos, inclusive com o marxismo. O líder socialista Jawaharlal Nehru, pessoa bastante próxima de Gandhi, assumira o governo da Índia independente, como primeiro-ministro. Apesar da proximidade entre Nehru e Gandhi, o primeiro se orientava por um socialismo pragmático, enquanto o segundo aliava métodos inovadores de resistência somados às atitudes tradicionalistas oriundas da cultura hindu. Nehru, posteriormente, foi sucedido por sua filha Indira Gandhi (sem parentesco com Mahatma Gandhi), seguida pelo filho mais novo de Indira, Rajiv Gandhi. Os dois últimos e Mahatma Gandhi foram assassinados por diferentes extremistas que lutavam por posições mais radicais nos conflitos políticos e religiosos. Representativa destas violências extremistas, a região da Caxemira tem sido o palco de conflitos violentos entre Índia e Paquistão. Desde a independência já houve três guerras declaradas entre os países.

Além disso, internamente, a Índia sofre com divisões dentro da sociedade civil, em que se registram conflitos violentos entre diferentes facções políticas e religiosas, inclusive envolvendo não raramente grupos islâmicos radicais. Dentro do hinduísmo também não há um consenso pacificador. As diferentes correntes defendem desde a religião ortodoxa, baseada nos ensinamentos dos Vedas, com as castas rigidamente respeitadas, até a idéia de que o hinduísmo não seria uma religião, mas um estilo de vida, ou mesmo aqueles que defendem um "hinduísmo secular", alijado da religião, atuante no âmbito político (como é o caso do sincretismo com o marxismo).

Na primeira metade do século XX houve várias iniciativas de restauração do hinduísmo, pautadas na tentativa de conciliação com outras religiões, como o islamismo e o cristianismo. Na época da resistência contra o domínio britânico e nas lutas pela independência, essas iniciativas não eram bem vistas por alguns que desejavam o levante armado contra os ingleses. O hinduísmo "politizado" ou "secular", como ficou conhecido, procurou desvincular o hinduísmo do caráter religioso e reelaborá-lo sobre bases éticas e nacionalistas. Vinayak Damodar Savarkar (1883-1966), líder revolucionário que se assumia ateu, foi o expoente desta corrente de pensamento. Foram dois de seus discípulos mais próximos que assassinaram Mahatma Gandhi.

Esse "hinduísmo secular" fora bastante impactante na Índia, especialmente na vida pública, na época da resistência contra o domínio britânico e imediatamente após a independência. Porém, assiste-se nos últimos cinqüenta anos, dentro e fora da Índia, um interesse cada vez maior pelo caráter espiritual do "hinduísmo religioso", mais próximo do misticismo e de sua cultura ancestral, desenvolvida nos primeiros milênios de sua história.

Em termos econômicos, desde o final dos anos 80, a Índia figura entre as consideradas "nações emergentes". Destaca-se sua produção de hardware e software, campo comercial que mais tem crescido desde a década de 70. Impressiona também a sua indústria cinematográfica: na Índia são produzidos cerca de 800 filmes por ano, fatia do mercado que tem interessado os produtores do cinema mundial, especialmente o milionário cinema hollywoodiano. Curiosamente, os filmes indianos são bastante populares no Paquistão, apesar de proibidos, o que não impede de serem captados na TV a Cabo. A Índia hoje é conhecida também como uma potência nuclear. O programa nuclear é creditado à iniciativa de Indira Gandhi, ainda na década de 70. Na década de 90 foram feitos novos testes, o que despertou a atenção internacional, com expectativas temerosas de que fossem utilizados arsenais nucleares contra o vizinho Paquistão, o qual desenvolvia também um programa nuclear, teoricamente justificado para fins pacíficos.

Entre figuras caricatas, história pouco conhecida e cultura distante do entendimento ocidental, a Índia permanece ainda uma espécie de alegoria, apropriada pela cultura de massas, seja através do cinema ou da televisão. Todavia, ainda que desconhecida, a história da Índia não fica à margem de processos bastante conhecidos entre nós e muito difundidos na história ocidental, especialmente na chamada História Contemporânea. É o caso do Imperialismo (domínio do Império Britânico sobre a Índia, desde meados do século XIX até meados do século XX) e da Guerra Fria (não-alinhamento, mas acordo de amizade com a União Soviética; ao passo que o Paquistão recebia apoio norte-americano). Recentemente, em tempos de neoliberalismo e globalização, é época de maior penetração da cultura ocidental na Índia, embora haja resistências das mais diversas formas. Um sintoma bastante evidente é a tendência homogeneizadora das apropriações que de suas peculiaridades histórico-culturais são feitas. Essa tendência é o foco que procuraremos atentar neste mural do OMC.