A fome no mundo: a nova fonte de lucro do capital financeiro

Maria José Castelano

Várias razões são apontadas para justificar a crise alimentar recente. Não há neutralidade neste debate. Segundo Jorge Romano, "em função de seus interesses e concepções, diversos atores têm destacado alguns fatores ou diluído as suas responsabilidades no conjunto deles."1 Dentre os fatores apontados estão o crescimento do consumo de grãos e a carne, fatores de ordem ambiental devido ao aumento da produção de alimentos e financeiro, como o enfraquecimento do dólar, moeda usada para a cotação das commodities agrícolas nos principais mercados do mundo. No entanto, uma das principais causas da crise alimentar recente permanece oculta na grande imprensa.

Vários acadêmicos, militantes de movimentos sociais e organizações não governamentais afirmam que a atual escalada de preços dos alimentos é resultado em grande parte de manipulação dos mercados. Em outras palavras, o aumento dos preços dos alimentos é gerado, sobretudo, pela especulação do capital financeiro por meio de bancos, fundos de pensão, fundos de alto risco e rendimento. Após o "estouro da bolha" especulativa representada pelo setor imobiliário americano, estes setores passaram a investir fortemente nos mercados internacionais de produtos agrícolas, em produtos primários em formas de commodities e isso teve conseqüência direta nos preços dos alimentos pelo mundo, em especial entre os países importadores. Segundo Romano, "articulado com as empresas transnacionais que controlam a comercialização de sementes e a distribuição mundial de cereais, o capital financeiro investe no mercado de futuros na expectativa de que os preços continuarão a subir. E, ao fazê-lo, reforça essa expectativa"1

Nos últimos anos os preços futuros de grãos não são regulados pela oferta e demanda, ou as irregularidades do tempo. As novas tendências do mercado agrícola são promovidas, em boa parte, pela entrada de novos fundos de investimentos. O mercado futuro chega a negociar 22 safras anuais de soja. Só os fundos são responsáveis por oito delas. Em 2007, o mercado futuro agrícola da bolsa de mercadorias da cidade de Chicago negociou 7,3 bilhões de toneladas de milho, 4,3 bilhões de soja e 2,7 bilhões de trigo. Enquanto a produção física desses produtos em 2007 foi de 780 milhões, 220 milhões e 606 milhões de toneladas, respectivamente. 1 Ou seja, estamos falando de um "descolamento" do setor de investimentos (especulativo) em relação a economia real.

A engrenagem financeira que move esse capital especulativo pode ser entendida a partir do seguinte ordenamento: com a redução das taxas de juros feita pelo Federal Reserve System - Fed (equivalente ao Banco Central Americano), os fundos migraram das aplicações da renda fixa para ações na bolsa de valores Dow Jones, depois Nasdaq, para o mercado imobiliário e, após a recente crise desse setor, para as commodities minerais como o petróleo e as agrícolas, nesse último caso com repercussões no preço dos alimentos.

A fome hoje é a nova grande fonte de lucros do capital financeiro. Mas o acesso aos alimentos é condição elementar a sobrevivência, afetando a vida das populações em todo o planeta. Essa contradição parece ser insolúvel dentro de uma lógica que privilegia os ganhos do capital em detrimento da condição humana. O resultado é a volta da inflação impulsionada pelo aumento do preço de alimentos, provocando até mesmo a sua escassez. Tais acontecimentos tem motivado revoltas e protestos em todos os continentes.