Segundo Caccia Bava (Le Monde, 2010, p. 03), alguns especialistas em marketing eleitoral identificam a aprovação do Presidente da República como o fator mais importante em uma eleição, o segundo fator seria o contexto econômico e o terceiro é o programa de governo, ficando por último, a identificação partidária.
Além disso, para este autor, "hoje, todas as campanhas majoritárias, especialmente as que disputam a Presidência da República, utilizam pesquisas de opinião para orientar suas mensagens eleitorais." Por isso, "os estilos e a linguagem dos comerciais dos diversos candidatos /.../ vão ficando mais parecidos a cada eleição" (id. ibid.,).
Faltando uma semana para as eleições, os principais candidatos à presidência não apresentaram, ainda, aos eleitores propostas claras que pretendem por em prática se forem eleitos. Na verdade, Marina e Dilma apenas protocolaram suas propostas de governo, recentemente, a qual a candidata Dilma somente nomeou de Diretrizes. Serra, até às vésperas da eleição, não havia protocolada sua plataforma de governo. (Folha de SP, 27/09/2010)
No entanto, independente destas fórmulas produzidas no calor das campanhas, processo de disputa com o objetivo de se conquistar o poder, alguns eixos da plataforma política dos candidatos foram delineados, nas últimas décadas, durante o governo de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Lula, apesar das críticas atribuídas a estes governos, de caráter político, como sendo governos neoliberais. Segundo estudo de Singer (2000, p. 165):
O eleitor decide seu voto a partir de predisposição de longo prazo e estímulo de curto prazo. Entre os estímulos de curto prazo, o desempenho econômico dos governantes costuma incidir com grande impacto sobre o sufrágio /.../ sobre as disposições de longo prazo, por sua vez, elementos como a renda, a escolaridade, a identificação ideológica, são naturalmente levados em consideração na literatura internacional.
Diante deste quadro, qual o contexto social, político e econômico que (de) marca as eleições neste pleito de 2010?
Na década de 1980, uma grande crise assolou o país atingindo duramente os trabalhadores. Os salários foram corroídos pela inflação, empobrecendo ainda mais a as classes sociais historicamente menos favorecidas. Os ramos econômicos voltados para o mercado de consumo popular estagnaram-se. Em 1988, quase 30 % da população recebia menos de um salário mínimo e cerca de 12 milhões de pessoas não obtinha rendimento algum. Além disso, os investimentos estrangeiros diminuíram, sendo os recursos nacionais canalizados prioritariamente para a especulação e a produção destinada à exportação e ao consumo supérfluo das elites. (Sader, 1990, p. 72-3)
Na eleição ocorrida em 1989, dentre os eleitores que votaram para presidente, aproximadamente 70% não tinha o curso primário completo e cerca de 80% não lia os jornais habitualmente, demonstrando a ausência de condições mínimas de informação para o pleno exercício da cidadania. Assim, o monopólio de audiência exercido pela Rede Globo teve papel decisivo na eleição de Collor de Melo, que representava os interesses da direita, apesar do discurso de cunho popular.
Já em fins de 1992, "o brasileiro estava quase 6% mais pobre do que em 1980, o desemprego alcançava milhões, o produto nacional decrescera em vários pontos percentuais e o estado, estruturalmente privatizado e falido porque privatizado, estava despedaçado em confusões..." (Chasin, 1989, p .89).
O Plano Real trouxe a estabilização econômica e o controle da inflação, que propiciou a permanência de Fernando Henrique Cardoso no poder por duas gestões, entre 1995 a 2002, apesar do seu caráter "anti-populista".
Quanto ao contexto que delineia as atuais eleições é preciso considerar os dois períodos de forte queda do nível de pobreza extrema, nos últimos quinze anos. O primeiro, entre 1993 e 1995, durante parte do mandato do então presidente Fernando Henrique Cardoso. A percentagem de brasileiros que viviam em extrema pobreza, em 1993, ano anterior ao Plano Real, era de 35,31%. O segundo período de recuo da situação de pobreza da população foi entre 2003 e 2006, no primeiro Governo Lula. O número de brasileiros que viviam na extrema pobreza caiu para 19, 31%. Em 2006, ainda havia 36,2 milhões de brasileiros vivendo com até R$125,00 por mês.
Assim, os programas desenvolvidos ou ampliados pelo governo Lula (como o Bolsa- Família), os investimento em educação iniciados em Governos anteriores, o controle inflacionário e expressiva ampliação de crédito contribuíram, de fato, para o avanço na luta contra a pobreza.
Para potencializar ainda mais esse cenário, em 2009, em meio à expansão da crise do mercado internacional, o governo de Lula incentivou a ampliação do consumo no mercado interno através de medidas como a redução de impostos e o aumento do emprego formal.
Os resultados dessa política econômica podem ser observados nos dados recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), reveladores que os brasileiros passaram a possuir, cada vez mais, bens essenciais à vida doméstica. Em 2009, as estimativas apontaram para a quase universalização de alguns itens, como o fogão (98,5% dos domicílios), a geladeira (93,9%) e a televisão (96%). Ampliou-se, também, o acesso a microcomputador e internet, com destaque ao número de domicílios com telefone (móvel ou fixo), que saltou de 19% para 84,9%.
O bom desempenho da economia brasileira e os programas de distribuição de renda elevaram o percentual de apoio ao governo Lula (várias pesquisas de opinião indicam aprovação de 80 % da atual gestão), sobretudo da população mais pobre e setores mais ricos, apesar do descontentamento da classe média. Além disso, Lula obteve significante projeção internacional.
As alianças do governo federal com setores conservadores do PMDB e com parcelas da burguesia nacional (é preciso considerar que o BNDES tem financiado os investimentos privados), assim como a manutenção de parte da plataforma do Governo de Fernando H. Cardoso, têm sido alvo de críticas de parte da intelectualidade vinculada a esquerda. Essas práticas, entre outras, denominada "Lulismo", são identificadas a partir do referencial teórico da analítica paulista de "populismo". Lula, como "pai dos pobres", projeta a candidatura de Dilma Rousseff e tenta fazê-la sua sucessora, como a futura "mãe dos pobres".
Em artigo publicado, recentemente, no Jornal folha de São Paulo, intitulado "A história e seus ardis - O lulismo posto à prova em 2010", Singer afirma que Lula definiu a agenda desta eleição ao aliançar-se com o povo, no seu segundo mandato. O conceito de "populismo" erigido por intelectuais vinculados a analítica paulista para explicar período que marca nossa história como a era Vargas, que têm como característica separar os acontecimentos políticos dos seus determinantes econômicos, poderia explicar os acontecimentos do presente?
O populismo é um conceito explicativo criado sob a influência do politicismo. Segundo Chasin , "o politicismo brasileiro arma uma política avessa ou incapaz de levar em consideração os imperativos sociais e as determinantes econômicas. A política sendo a administração do domínio de uns sobre os outros, mas sua apropriação pela perspectiva liberal a eleva como campo de resolução de todos os problemas."
No quadro sociopolítico brasileiro, vitórias eleitorais e exercício regular de poder só têm sido possíveis na forma de conciliação de propósitos e da aliança de vetores políticos, no caso, a busca de intermediação entre os interesses dos setores populares e da burguesia nacional, com todas as contradições inerentes a esse propósito.
Chasin (1989, p. 116) analisando a necessidade de uma aliança nos partidos que se colocam a esquerda no pleito de 1989, afirma que tal aliança deveria objetivar a mudança do sistema de produção, na impossibilidade da superação do modo de produção. Esse seria o aspecto central do momento transitório primário na construção de uma plataforma cujos objetivos não deveriam se dar exclusivamente pelas necessidades cegas do capital, mas também considerar as necessidades humano-societárias organizada em torno do capital socialmente controlado.
Uma plataforma orientada para uma reordenação do sistema produtivo, deveria contemplar a produção para o consumo dos mais pobres. Tal aspecto, deslocaria assim, a tônica política, na medida em que o combate à miséria se torna o critério de governabilidade. A modernidade é identificada pela erradicação ou, pelo menos, à redução sistemática da miséria física, que implica o resgate também de dimensões espirituais (Chasin, 1993, p. 90) .
Ou seja, a esquerda precisava naquele período de uma nova interpretação do Brasil - de sua evolução histórica, da natureza da sua formação social, do caráter da hegemonia dominante e dos blocos no poder- para estar em condições de ter uma estratégia própria. E hoje, qual é a tarefa daqueles que acreditam na possibilidade da superação da atual lógica societária?
Nas palavras de Chasin (1989, p. 121), "Quando a esquerda não rasga horizontes, nem infunde esperanças, a direita ocupa o espaço e draga as perspectivas: é então que a barbárie se transforma em tragédia cotidiana."
Referências Bibliográficas:
CACCIA BAVA, Silvio. Le Monde Diplomatique, julho/2010, p. 03
CHASIN, José. A sucessão na crise e a crise na esquerda. IN: Revista Ensaio, São Paulo: Editora Ensaio, 1989, p. 1-122.
____. Brasil, a resistência ao neoliberalismo. São Paulo: Ensaio, 1993.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, vol. II.
MENGARDO, Bárbara. O Futuro Será Verde?. In: Caros Amigos. N° 50. SP:Setembro de 2010, p
SADER, Emir. A vingança da história. São Paulo: Boitempo, 2003.
____, Emir. A esquerda brasileira e seus enigmas: que estratégia para qual esquerda?
____, Emir. A transição no Brasil. São Paulo: Atual, 1990, p. 72.
SINGER, André. Esquerda e Direita no Eleitorado Brasileiro: A identificação Ideológica nas Disputas Presidenciais no Eleitorado Brasileiro de 1989 e 1994. São Paulo: EDUSP, 2000.