2008: a grande crise da econômica capitalista?

Gilberto Calil

"Em um sistema de produção onde toda a continuidade do processo de reprodução depende do crédito, quando este acaba subitamente e somente transações com dinheiro passam a ser aceitas, é inevitável que ocorra uma crise, uma tremenda demanda por meios de pagamento. É por isso que, à primeira vista, a crise inteira parece ser somente uma crise de crédito e de moeda. E de fato trata-se apenas da conversibilidade de letras de câmbio em dinheiro. No entanto, a maioria destes papéis representam compras e vendas reais, cuja extensão - para muito além das necessidades da sociedade - é, afinal, a base de toda a crise. Ao mesmo tempo, há uma quantidade enorme destas letras de câmbio que representam mera especulação, que agora revela sua face e colapsa; especulação fracassada com o capital de outras pessoas, com o capital-mercadoria depreciado ou invendável, ou com ganhos que nunca mais poderão ser realizados. Todo esse sistema artificial de expansão forçada do processo de reprodução evidentemente não pode ser resolvido com um banco, por exemplo, o Banco da Inglaterra, entregando a todos esses especuladores o capital que lhes falta através de seus títulos, comprando mercadorias depreciadas a seus antigos valores nominais. Aliás, é nesse momento que tudo começa a parecer distorcido, já que nesse mundo de papel, o preço real e seus fatores reais desaparecem, deixando visível somente metais, moedas, cédulas, letras de câmbio e títulos."
Karl Marx, O Capital, vol. 3, cap. XXX. 1865

A passagem acima, escrita há quase 150 anos, deixa claro que a crise é inerente ao sistema capitalista. Mas, ao mesmo tempo, ajuda-nos a perceber que o que parece em um primeiro momento apenas uma crise financeira (estouro das "bolhas especulativas", para usar a linguagem corrente) é muito mais profundo, com conseqüências bastante palpáveis para todo o conjunto do sistema capitalista. Cabe lembrar, como há mais de 100 anos escreveu Lênin, que sob a forma imperialista o capital bancário e o capital industrial (ou "produtivo", como preferem dizer os economistas) não existem em separado, mas unificadamente, como capital financeiro. Portanto, não faz sentido dizer que uma crise é "apenas financeira", pois uma crise financeira é uma crise do sistema em seu conjunto.

As crises são inerentes à dinâmica do sistema capitalista, mas se dão sob formas, condições e intensidade variadas. A crise geral de 1929 provocou anos de recessão mundial e seus efeitos terríveis impulsionaram, dentre outras conseqüências desastrosas, a ascensão do nazismo e o desenvolvimento da II Guerra Mundial. A ampla destruição provocada pela II Guerra Mundial permitiu um novo ciclo de acumulação capitalista, a partir da reconstrução da Europa. Nas três décadas que se seguiram, verificaram-se índices constantes de crescimento econômico e os Estados nacionais passaram a regular em alguma medida as condições de desenvolvimento capitalista. Na década de 1970, no entanto, as grandes crises do petróleo (1973 e 1979) anunciavam uma nova crise. Neste contexto, construiu-se um novo consenso, apoiado pelas grandes empresas, seus intelectuais e os governos nacionais dos principais países imperialistas, buscando superar a crise através da desregulamentação completa da acumulação capitalista, através do estímulo à financeirização, ao livre comércio, às privatizações, da redução dos direitos sociais e trabalhistas, do desmonte dos serviços públicos, da concentração da produção e da intensificação da exploração sobre os trabalhadores. Este consenso impulsionou a "era neoliberal" que marcou as duas últimas décadas. Por algum tempo, possibilitou lucros gigantescos para os grandes bancos e corporações multinacionais, levando ao enriquecimento sem precedentes de seus executivos e seus principais acionistas. No entanto, uma hora a festa tinha que acabar e a acumulação capitalista se depara com seus limites absolutos. A crise atual pode ser o anúncio deste novo cenário.

O estímulo ao livre comércio internacional - que impulsionou a enorme concentração produtiva e o aumento da exploração sobre os trabalhadores - tem como efeito indesejado tornar o conjunto do sistema muito mais frágil. Assim, hoje um abalo na economia chinesa, indiana ou russa, por exemplo, provoca imediatos efeitos em cadeia no conjunto do sistema. A crise atual, no entanto, concentra-se no principal centro do sistema capitalista, os Estados Unidos (e, em grande parte, também na Europa), com o que pode-se prever conseqüências muito mais drásticas do que as diversas crises regionais das duas últimas décadas, que eclodiram na periferia do capitalismo (crises "dos tigres asiáticos", "mexicana", "brasileira", "russa", "argentina", etc.)

O extraordinário aumento da exploração sobre o trabalho das últimas décadas, apesar de ter permitido em um primeiro momento o aumento dos lucros capitalistas, criou um problema insolúvel para o desenvolvimento capitalista: se as grandes massas são cada vez mais exploradas e, portanto, têm sua capacidade de acesso aos bens de consumo cada vez mais reduzida, torna-se inviável o contínuo crescimento da produção de mercadorias, imprescindível para manter as altas taxas de acumulação do capital. Por algum tempo o neoliberalismo pareceu funcionar bem, já que a corrupção e os mercados financeiros possibilitavam gigantescos lucros, sem relação com o crescimento do aparato produtivo; e, ao mesmo tempo, as empresas demitiam trabalhadores na expectativa de vender seus produtos no "mercado externo", que parecia ilimitado, com a incorporação da China e da Rússia. Ocorre que também no "mercado externo" os trabalhadores eram demitidos e os que mantinham seus empregos tinham suas condições de vida deterioradas. Portanto, a despeito das enormes necessidades das populações, o mercado consumidor deixou de crescer na medida necessária, fazendo com que se iniciasse um ciclo de superprodução, e, conseqüentemente, um cenário propício a uma recessão mundial de vastas conseqüências.

A crise atual ainda não se revelou em toda sua dimensão. São muitos os fatores que contribuem para obscurecer sua real magnitude. O primeiro deles é a manipulação midiática, sempre buscando reduzir a crise a algo conjuntural e passageiro. Inúmeras vezes ouvimos que "o pior já passou" e logo depois somos surpreendidos por novas falências e prejuízos bilionários nas bolsas de valores. Também os governos dos países centrais tentam desesperadamente limitar os efeitos da crise "estatizando" os prejuízos, ou seja, evitando as falências às custas de bilhões de dólares de dinheiro público. Também a eleição presidencial nos Estados Unidos, com a "onda Obama" e a expectativa que este despertou desviam a atenção da crise e fazem esquecer que o mesmo Obama apoiou a destinação de centenas de bilhões de dólares de dinheiro público para socorrer os bancos falidos. No Brasil, declarações irresponsáveis de autoridades governamentais seguem afirmando que os efeitos da crise não chegarão aqui. Ao contrário, a crise está apenas em seus estágios iniciais e suas conseqüências são imprevisíveis, até porque se desenvolvem em um cenário de iminente catástrofe ambiental, acelerada pelo crescimento desordenado e desregulamentado do capitalismo nas últimas duas décadas.