Como o agressor se torna a "Vítima"

Prof. Ms. Luis Fernando Guimarães Zen

Em 2005 inauguramos nossos trabalhos abordando a Guerra do Iraque, dois anos após o então presidente dos Estados Unidos George W. Bush ter anunciado o fim da Guerra. Na ocasião, questionamos entre outras coisas os motivos que levaram a Guerra: armas de destruição em massa; apoio ao terrorismo; além do argumento de que a guerra era necessária para "levar a democracia ao Iraque".

Cinco anos depois, não pretendemos retomar temas já trabalhados, mas sim, refletir a atualidade dos mesmos. Nessa edição do Observatório do Mundo Contemporâneo vamos abordar o mesmo problema, a Guerra, por uma outra e mais recente forma de tentativa de legitimação da mesma. Se em 2002 quando o ataque estadunidense começou, os "senhores da guerra" se utilizaram de sua imensa capacidade de criar um inimigo, utilizando-se dos seus diversos recursos que vão desde a televisão, jornais e revistas, além de muitas outras formas de convencimento, em 2010 não é diferente.

A tática abordada aqui é o recente premio do "Oscar 2010". Em pleno momento que os ataques estadunidenses passam por um processo de acirramento, tanto no Iraque quanto no Afeganistão, um filme rodado em 2008 ganha o maior número de prêmios de 2010, algo incomum para a famosa "academia".

O questionamento aqui, vai no sentido de pensar como que o filme inverte a posição dos exércitos estadunidenses que passam de agressores a vítimas. Porque a diretora do filme Kathryn Bigelow, retrata uma brigada do exército estadunidense que trabalha no desarmamento de bombas? Dessa forma, ela retrata os soldados dos EUA por um lado que os torna vítimas dos ataques iraquianos, ou seja, os soldados não estão lá para atacar um país e sim para defender os seus soldados dos ataques inimigos.

O filme mostra desde o início os soldados convivendo entre si, isso nos familiariza com os mesmos, passamos a "conhecer" esses soldados, eles tem nome, família, função. Por outro lado, os iraquianos aparecem aleatoriamente, não sabemos quem eles são, todos são suspeitos, estão a todo momento tramando um suposto ataque, eles não tem rosto e apesar de serem as verdadeiras vítimas, tanto do antigo regime de Saddam Hussein, quanto dos ataques estadunidenses desde 1992, aparecem para Hollywood como agressores. É a inversão dos papéis.

O cenário de destruição mostrado pelo filme foi causado basicamente por quatro motivos: o primeiro deles foi devido a uma longa guerra entre o Irã e o Iraque na qual os EUA forneciam armamentos para aquele país. A segunda causa foi a Guerra do Golfo de 1992, quando os ataques aéreos estadunidenses destruíram boa parte da capital iraquiana. O terceiro motivo veio logo em seguida, causado pelo embargo econômico liderado pelos EUA desde 1992 e que até o início do atual conflito (2002) já havia matado (de fome e sede) mais de 1,5 milhões de pessoas naquele país. O quarto motivo vem de quase uma década de ataques do atual conflito, onde centenas de toneladas de bombas e ataques que utilizam de toda a sua capacidade bélica já foram lançadas sobre uma população que não tem hoje a menos resistência organizada.

Passados mais de oito anos de conflitos diretos no Iraque (se considerarmos os primeiros ataques ao Iraque logo após o fatídico atentado de 11 de setembro de 2001 em Nova York) os motivos iniciais já caíram por terra, não foram encontradas armas de destruição em massa, até porque já se sabia que elas não existiam, Saddam Hussein foi covardemente enforcado, mesmo nunca tendo sido comprovada sua ligação com terroristas, e a democracia iraquiana não tem nenhuma legitimidade diante da população. Ou seja, os motivos alegados para o início dos conflitos já não se sustentam mais, mesmo assim, uma nova onda de violência vem se instalando no Iraque mesmo após a troca de governo nos EUA.

E o cinema hollywoodiano legitima os ataques invertendo os papéis, onde as forças invasoras se tornam vítimas da guerra e as vítimas se tornam as agressoras.

Referências Bibliograficas:
CAROS AMIGOS, ano VI número 72 março 2003.
RAMONET, Ignacio. Propagadas Silenciosas: massas, televisão,cinema/Ignacio Ramonet.Petropolis RJ: VOZES,2002.
DORNELES, Carlos. Deus é Inocente: a imprensa não/ Carlos Dornele: prefacio Fabio Konder Comparato - São Paulo: GLOBO 2002.
VIRILIO, Paul. 1932 Guerra e Cinema: logistica de percepção/ Paul Virilio/ Tradução de Paulo Roberto Pires. São Paulo: BOATEMPO, 2005
http://www.unioeste.br/projetos/observatorio/