MASSACRES EM ESCOLAS: UM OLHAR CRÍTICO SOBRE A ABORDAGEM MIDIÁTICA

Violência como espetáculo midiático

A violência enquanto espetáculo midiático é um fenômeno relativamente recente. De maneira ampla podemos apontar a década de 1970 como um momento em que tal fenômeno ganha corpo. Os massacres ocorridos nas escolas e universidades são exemplos desta “espetacularização” midiática. O massacre ocorrido na Universidade Virginia Tech (EUA) em abril de 2007, quando um aluno matou a tiros 16 pessoas dentro do campus da universidade, assim como o massacre ocorrido na Finlândia, em que um estudante de 18 anos tirou a vida de 16 pessoas em uma escola e depois atentou contra a própria vida com um tiro na cabeça, e mais recentemente, em abril de 2011, quando um jovem de 23 anos entrou em uma escola no bairro do Realengo no estado do Rio de Janeiro matando 11 crianças e deixando feridas outras 13 tomaram e têm tomado às manchetes de jornais, revistas e demais meios de comunicação.

O significado de “espetáculo”, segundo o Dicionário escolar da língua portuguesa é “representação teatral; vista; panorama” , ou então, segundo o Novo Dicionário Aurélio da língua portuguesa, “tudo o que chama a atenção, atrai e prende o olhar” . A forma como a mídia vem tratando os recentes massacres nas escolas em grande medida não destoa destes significados. Um espetáculo da violência onde diversos recursos são empreendidos e muitas vezes induzem à avaliações demasiadamente apressadas ou simplórias.

Se pensarmos estes casos de massacres nas escolas, como os que foram citados acima, podemos ter uma breve dimensão da forma como se dá esse “espetáculo” e os variados recursos para apresentá-lo enquanto tal. Ao ligar a televisão nos dias seguintes ao massacre de Realengo, ocorrido no Rio de Janeiro em abril de 2011, não raramente nos deparamos com as imagens destes massacres, repetidas sistematicamente desde o noticiário da manhã, passando, por exemplo, pelos programas de culinária e fechando o dia com os jornais da meia-noite. Na internet esta situação não é tão distinta, basta abrir os sites de noticias mais frequentados para observarmos o esforço empreendido pela mídia para apresentar o massacre na forma cinematográfica. As imagens e os testemunhos são editados e montados dentro de um roteiro que apresenta a realidade como um filme.

Apoiada no forte apelo publicitário da violência os grandes veículos de comunicação têm transformado os massacres ocorridos nas escolas em terrível espetáculo midiático. Sob o pretexto de informar, a grande mídia bombardeia o público com imagens, dados e avaliações fragmentadas e muitas vezes descontextualizadas cujas consequências são de um lado a banalização e a naturalização da violência e de outro a caracterização destes eventos como expressão de comportamentos individuais desviantes. Sem se preocupar com as consequências destes excessos, mas com a audiência, a mídia desenvolve quase sempre uma leitura epidérmica e superficial dos eventos.

Nesta linha, jornais, revistas e a própria internet se concentram em divulgar dados biográficos daqueles que cometeram as chacinas, buscando em suas histórias pessoais uma explicação para o evento. Para a tragédia ocorrida em Realengo, a imprensa brasileira encontrou rapidamente suas respostas a partir da trajetória individual do rapaz que cometeu a chacina. As explicações para sua atitude estavam: em seu isolamento social, seu interesse por jogos violentos, no bullying sofrido na escola e na loucura que provavelmente herdara da mãe. Assim, formando o roteiro de um espetáculo, sua vida foi sendo exposta dia-a-dia nos meios de comunicação e consumida pelos espectadores sem que de fato houvesse uma reflexão crítica sobre os aspectos sociais que envolveram o massacre ocorrido na cidade do Rio de Janeiro.