Juventude e trabalho industrial no Oeste paranaense: o futuro que não se realiza.

Antônio de Padua Bosi

Nos últimos quinze anos a instalação de indústrias no Oeste paranaense mudou radicalmente a face desta região. Hoje, mais de 30% dos trabalhadores estão ocupados com algum tipo de trabalho nas fábricas e 80% desses empregos são oferecidos por indústrias onde se manufaturam alimentos, principalmente carne de frango e de porco. Portanto, os jovens desta região que trabalham nessas empresas fazem parte de uma numerosa classe operária que tem crescido sem parar, embalada por promessas de que a vida vai melhorar.

De fato esta recente concentração industrial já conseguiu um lugar de destaque na economia do Estado. Seu faturamento é contado na casa das dezenas de milhões de reais e o resultado de tanto trabalho (carne de porco, de frango, queijo, leite, biscoitos etc.) circula nacionalmente e chega até mesmo em países do Oriente Médio, rendendo dólares que remuneram fartamente esses empreendimentos. É uma verdadeira história de sucesso, contada em artigos científicos, noticiada em jornais, celebrada em festas e eventos políticos. Mas nem todos estão felizes e entusiasmados com tudo isto.

João Schneider foi um dos primeiros operários desse processo de industrialização, empregado num frigorífico desde a sua inauguração em 1994. Ele entrou como auxiliar geral e fez todo tipo de tarefa prevista para alguém com pouca escolaridade e muita disposição física para o trabalho. Empacotou e carregou mercadoria, foi encarregado da limpeza e aprendeu a cortar a carne do frango. Tornou-se um especialista nisto. Quando lidava com as coxas e sobre-coxas da ave, realizava quatro gestos para cortá-las e separá-las, num total de 68 movimentos por minuto. Esta rotina lhe deixava exausto, mas era recompensada com a possibilidade de economizar dinheiro para comprar uma motocicleta. Depois de três anos conseguiu realizar seu sonho. Também se casou com uma colega de trabalho que conheceu na linha de produção. Juntos, com as despesas divididas, continuaram a perseguir a promessa que lhes foi feita quando aquela fábrica começou a funcionar: disseram-lhes que progrediriam com a prosperidade da empresa. Mas João não foi além da moto. O nascimento de um filho adicionou mais responsabilidades, preocupações e gastos, principalmente gastos. O salário pareceu diminuir.

Se a piora da situação inicial não fosse bastante, começou a sentir dores insuportáveis devidas ao trabalho. Dores no ombro, nos braços, nas costas e em algumas articulações. Freqüentou diversas vezes o médico da própria fábrica. As consultas eram rápidas e terminavam com uma receita de analgésicos e antiinflamatórios. As coisas não melhoraram mesmo após realizar inúmeras sessões de fisioterapia. Deixou de ser um "colaborador" naquela fábrica depois de dez anos de trabalho. Recorreu à Justiça contra a empresa alegando ter sido destruído pelos cortes na carne do frango e terminou com um acordo indenizatório de aproximadamente trinta salários mínimos e com os tendões "supraespinhal", "infraespinhoso" e "bíceps braquial" rompidos. Gastou sua indenização no pagamento de uma cirurgia reparadora que amenizou as dores, mas não restaurou a força e a destreza dos movimentos que tinha quando entrou naquele frigorífico aos dezenove anos de idade. Hoje, com 34 anos, está imprestável para o trabalho. É dono de um corpo sonolento e mutilado do qual se esvaíram todas as forças ao longo de uma década dedicada às jornadas diárias de participação do sucesso empresarial no Oeste paranaense. O vigor moral que lhe restou é animado principalmente pela esperança de que seu filho não repita a sua trajetória, experimentada com um gosto amargo de arrependimento. Além do salário da esposa, que saiu do frigorífico pra trabalhar numa confecção, João complementa a renda da família com bicos incertos que o ajudam também a manter a dignidade.

Cristiano Schmidt tem dez anos a menos que João. Há quatro anos trabalha num frigorífico, seu terceiro emprego de carteira assinada depois de diversas experiências com ocupações informais. Na escala oferecida por economistas e políticos Cristiano "subiu na vida". É filho de um pedreiro e de uma empregada doméstica. Com eles aprendeu a cultivar o valor do trabalho honesto e a confiar na promessa trazida pelas indústrias. Vive com seus pais e paga parte das despesas da casa como as contas de água e de luz. O restante de seu salário foi economizado para comprar uma motocicleta Bis, um dos principais sonhos de consumo acalentados por jovens que, como ele, cresceram num bairro pobre e estigmatizado. A estabilidade neste emprego trouxe a expectativa de terminar o ensino médio, uma meta sempre adiada pela necessidade de trabalhar. Matriculou-se num supletivo, mas logo desistiu porque chegava esfalfado em casa, sem energia pra coisa nenhuma. Saía para o trabalho entorpecido pelo sono e esta se tornou a rotina que passou a marcar sua vida: o cansaço. Há um ano procurou o ortopedista esperando se livrar de uma incômoda dor que lhe "queimava" o pescoço. Perdeu a noção de quantas vezes se consultou. Foram tantas que decorou o nome de diversos antiinflamatórios, mas ainda não se acostumou às freqüentes "fisgadas" sentidas também "na cabeça e nas costas". Mais algum tempo nesta situação e Cristiano alcançará João. Só não se sabe como sustentará sua dignidade e nem de onde retirará ânimo para superar a raiva e refazer o traçado de sua vida quando estiver destroçado.

Willian Lagemann é o terceiro sujeito desse triste enredo. Tem apenas 20 anos de idade e já completou dezoito meses trabalhados num frigorífico. Seus pais também são trabalhadores com pouca qualificação profissional cujas limitações materiais lhes impuseram um comportamento deferente e quase conformado com a vida. Separaram-se há poucos anos e o pai converteu-se à bebida, um tipo de conforto nada incomum para muitos daqueles que se curvam diante de tantos maus tratos vividos. Nos filhos, e entre eles está Willian, reside a possibilidade de mudar sua sorte. Willian sente essa projeção dos pais, mas tem suas próprias preocupações compartilhadas pelos demais jovens trabalhadores pobres na região. O salário lhe serve para comprar os emblemas de sua época, roupas de etiqueta, tênis da moda e, é claro, uma motocicleta que dará a ele a impressão de liberdade e poder. Assim como João, Cristiano e outros milhares de jovens, Willian começa a sofrer com o trabalho. Dores musculares, "fisgadas", "calores", analgésicos e antiinflamatórios têm se constituído parte de seu cotidiano. Em pouco tempo escorregará para a posição de Cristiano e depois de João.

Manter-se moralmente vivo quando a própria integridade física está ameaçada é o ato final de um roteiro dramático que pressiona cada jovem trabalhador dessa região a desenvolver um papel nesta história triunfante do crescimento industrial no Oeste paranaense. O futuro prometido é simplesmente irrealizável para os que trabalham, mas esta consciência não é amplamente esclarecida. Aliás, não se encontra nenhum traço dela nos discursos políticos ou na imprensa que nos informa sobre a "realidade" e a fortuna de termos tantas indústrias neste lugar. Enquanto isso, gente como João, Cristiano e Willian continuam a encher as filas de inscritos para essas fábricas, perseguindo futuros que não se realizam.