A imprensa no Brasil tem um campo pródigo e sempre farto quanto a determinadas notícias que são temas recorrentes e, ano após ano, entram nas pautas dos jornalistas. É o caso da violência urbana, dos escândalos políticos, da agressão ao ambiente e das tragédias decorrentes de fenômenos naturais que causam a perda de bens materiais e vidas, como as enchentes e deslizamentos de terras, esses últimos tão comuns no período de chuvas que já entraram para o calendário das tragédias esperadas.
O que causa indignação é a naturalidade (no sentido de resignação) com que as pessoas encaram essas tragédias anuais que cobram um alto preço em termos financeiros e, principalmente, de vidas perdidas e de vidas despedaçadas daqueles que sobrevivem. Associada a essa naturalidade (foi a “vontade de Deus” ou foi um infortúnio), temos a naturalização dessas tragédias como fenômenos exclusivamente naturais, não explicitando as contradições sociais que possuem alguma influência, mesmo que de forma indireta, nas causas do fenômeno de resultados trágicos, assim como relação sobre as condições de vida das pessoas atingidas, no momento em que ocorre o problema, e mesmo na reconstrução de suas vidas após o acontecido.
Essa dupla indução ao erro de análise -a naturalidade e a naturalização -torna-se fonte de justificativas para o ocorrido tanto para pessoas diretamente atingidas pela tragédia, quanto para os representantes do Estado responsáveis por evitar ou, ao menos, diminuir os riscos provenientes de tais catástrofes. Os primeiros, protagonistas e vítimas de uma situação inusitada que transforma de maneira rápida e radical o seu cotidiano, tem sua resignação alimentada pelo choque e pela fragilidade de sua condição, o que dificulta mesmo a organização para a construção de uma pauta de reivindicações. No caso dos representantes do Estado, predomina a dispersão de responsabilidades pelas autoridades públicas, associada a tomada de ações de forma desarticulada, demonstrando despreparo para situações de tragédias que atingem grande número de pessoas e área.
Definitivamente, é notório que a prevenção às tragédias como aquela que assolou a região serrana do Rio de Janeiro, nesse ano de 2011, não é prioridade nas ações concretas das diversas esferas de governo, apesar de sempre constar como prioritária enquanto discurso. Isso fica evidenciado pela falta de estrutura dos órgãos de Defesa Civil, pela falta de mapeamento das áreas de risco por deslizamentos ou enchentes, pela inoperância do sistema de saúde em momentos críticos que resultam na necessidade de atendimentos acima do esperado, sobrecarregando um sistema que já é deficiente em situações de “normalidade” pública, entre outras...
A falta de um programa articulado de prevenção nas diversas escalas espaciais (nacional, regional, municipal) adquire contornos dramáticos quando se constata a timidez de investimentos em ciência e tecnologia para implementar um sistema de alarme eficiente e adaptado às condições locais, o qual, na impossibilidade de evitar os deslizamentos ou enchentes, pode ao menos dar oportunidade para as pessoas salvarem as suas vidas, antes que o pior venha a acontecer.
Embora saia mais caro construir novas casas, às vezes bairros inteiros, para os desabrigados e reconstruir a infra-estrutura urbana atingida (como ruas, escolas, comércio, etc.) por fenômenos como deslizamento ou enchentes, a tendência é preferir reagir ao acontecido a prevenir os males. Até porque, quando situações de repercussão catastrófica ocorrem, tornam-se visíveis; quando são prevenidas, nunca se sabe delas. A prevenção destas situações por suas causas não são notícias.
Junto às ações de prevenção ou minimização dos riscos mencionados anteriormente, algo importante são as políticas públicas e sociais de ocupação e organização dos espaços urbano e rural. No caso dos grandes centros urbanos é clássica a análise sobre o processo desastroso da ocupação de áreas inapropriadas para a fixação de residências, em especial pelos mais pobres. Os grupos sociais abastados ou de classe média têm condições de garantir maior segurança quanto ao seu local de moradia -podem morar no “asfalto” -, restando aos marginalizados socialmente a ocupação dos morros, de antigos lixões, das margens de rios, dos mangues.
O Brasil passou por um processo de urbanização de sua população que ocorreu de forma rápida e intensa. Em poucas décadas as cidades brasileiras, especialmente as regiões metropolitanas, adquiriram uma condição de inchaço, com crescimento desordenado e espacialmente irracional. Como o Estado se omitia em oferecer moradias em áreas seguras aos pobres, estes se viam obrigados a resolver a questão de forma individual e, por falta de opção, vão ocupar as áreas mais sujeitas a algum tipo de risco ambiental. Muitos grupos políticos, das mais diversas orientações ideológicas, mesmo sabendo que a construção de residências em determinados locais oferecia perigo aos moradores, no curto ou no longo prazo, estimulavam esse tipo de ocupação, buscando mesmo a regularização ou a oferta de serviços públicos para a “comunidade”, considerando os ganhos político-eleitorais que renderiam. Assim, temos um círculo vicioso envolvendo pobreza, esperteza e omissão que perdura por décadas, mas que a cada ano cobra em vidas as suas consequências em termos de ações ambientalmente e socialmente desastrosas.
Para finalizar, gostaríamos de apresentar alguns dados que demonstram como esses desastres ambientais são recorrentes em nosso país 6:
6 O Estado de S. Paulo. Catástrofe no Rio. Caderno Cidades, 13/01/2011.
É preciso destacar que os casos apresentados constituem-se numa amostra de um problema crônico que se repete, com maior ou menor gravidade, todos os anos, em diferentes pontos do país e que nada indica que não voltarão a ocorrer. Mais importante ainda é levar o leitor a refletir para além dos números frios de mortos e desabrigados, e sensibilizá-lo que por trás de cada caso temos tragédias individuais e familiares. A somatória de todos os números trágicos não revela os dramas pessoais dos sobreviventes que têm suas vidas alteradas para sempre, mesmo que a mídia já tenha abandonado o foco de atenção dessa tragédia em busca de outra mais recente.