A Taça do Mundo é nossa. E a Copa de 2014? De quem é?

Celso, o Maracanã e a Copa de 2014

Celso Marques dos Santos é peão de obras na cidade do Rio de Janeiro. Botafoguense, ele tem 57 anos. Eu o conheci em janeiro de 2011, durante o jogo em que o Glorioso bateu o Duque de Caxias por 2 a 1, com gol de Loco Abreu! Lado a lado na arquibancada, comemoramos juntos os dois gols que deram à torcida a esperança de um bom começo. Meu amigo tricolor das laranjeiras, que me acompanhou naquela tarde, registrou o momento para a posteridade. Afinal, eram dois botafoguenses que, separados pela distância de quatro estados, foram postos juntos por força do futebol! Alegre de ter encontrado um compatriota vindo de tão longe Celso convidou a mim e ao meu amigo para uma comemoração no “botachopp”, ao lado do Engenhão.

Torcedores falam de seus times..., mas quando são identificados com a mesma bandeira contam sobre suas trajetórias. A memória de Celso estava repleta de conquistas, vitórias e glórias. Ele disse que viu o Botafogo jogar pela primeira vez em 1964, levado ao Maracanã por seu pai. O placar de 1 a 0 contra o Flamengo marcou também a despedida de Nilton Santos, bicampeão mundial, conhecido como a enciclopédia do futebol, o melhor lateral esquerdo do mundo. Aquela tarde de Maracanã cheio ajudou a decidir o destino de Celso como botafoguense. Os esforços de seu pai para engajá-lo nas fileiras da Estrela Solitária foram recompensados. Com 10 anos de idade nascia mais um alvinegro carioca, e o palco onde aconteceu seu batismo transformou-se em sua casa! Lá, no Maracanã, ele assistiu a exibições espetaculares. Viu a estreia de Jairzinho, a despedida de Garrincha, o Rei Pelé em atuações ontológicas pelo Santos, a inteligência de Afonsinho... tudo isso sentado na arquibancada do Maracanã.

Foi então que o entusiasmo de Celso deu lugar ao lamento. Lembrou-se de como o futebol e seus heróis foram maltratados por cartolas, empresários e todo tipo de gente que só fez lucrar com a alegria do povo. Aliás, disse ele, “alegria do povo era um dos apelidos de Garrincha”. Seus olhos marejaram ao falar do “anjo torto”, e de como ele foi corroído por inúmeras infiltrações no joelho e pelo vício do álcool. Cabisbaixo, enxugando os olhos, Celso sussurrou: “ele morreu de cirrose, em 1983 eu acho..., na verdade seu futebol morreu antes, quando o joelho ficou bichado. Mas trabalhador morre assim mesmo, desassistido”. Rapidamente ele passou em revista um sem-número de jogadores que terminaram como Garrincha. “Veja o Marinho Chagas. O cara jogava demais. Já deu um chapéu no Pelé, você sabia? Jogador de seleção. Agora precisa de ajuda, de dinheiro pra se tratar do alcoolismo. Me diz se isto está certo?”

A conversa, que começou animada, aos poucos foi ganhando contornos tristes, numa escala que foi da queixa a condescendência. Tentei mudar de assunto, em vão. Perguntei onde ele trabalhava. A resposta adicionou mais dor à conversa. “Trabalho na reforma do Maracanã. Semana passada eu assisti destruírem as arquibancadas. Eu me sentava lá. Vão colocar cadeiras numeradas no lugar. Você sabia que eu já vi jogo no „Maraca? com 180 mil pessoas? Agora só cabem 80 mil e depois da reforma vai caber menos ainda. Vai virar estádio pra gente rica. Mas eu guardei um pedaço daquela arquibancada pra mim”. É..., aquela conversa não tinha como melhorar. Alegria de botafoguense é assim mesmo, triste. Nos despedimos e fui embora com meu amigo tricolor.

E a Copa? Bem..., Celso não verá a Copa do lugar que sempre ocupou desde que seu pai o levou pra ver a despedida de Nilton Santos. É um trabalhador... igual ao Garrincha. Pra sobreviver vê-se obrigado a demolir o Maracanã, uma parte de si. O pedaço da arquibancada será mostrado aos netos, junto com as memórias sobre o “anjo torto”, Pelé e Afonsinho. Sua presença viva testemunha que a Copa de 2014 e o Maracanã não serão para os trabalhadores como ele. Será pra você?